terça-feira, 5 de julho de 2011

Horrible things i've done... I dont care with the words... Quando vejo o teu comportamento, nao preciso mais de pensar. Observei-te enquanto entravas no metro. Subtil. Discreta e nada observadora. Ias comendo os teus pensamentos matinais, eu nao tinha mais nada o que fazer. Estava apenas aborrecida. E escolhi te observar. Estupidamente. Continuei a observar te, desajeitadamente retocas te a maquilhagem ali mesmo. No metro. Sentada entre um mulcumano e um caucasiano. Nenhum dos dois olhava para ti. Enquanto de uma forma sexy puxavas as tuas pestanas, com aquele pequenino instrumento. Mesmo que a cabine oscilasse bastante. Tinhas a mao firme. Envolveste no cachecol e sais em Holborn. Vi-te sair com a maior tentação de sempre em seguir alguem. Nao que nunca o tivesse feito. Já o fiz por desdém. Nao com esta vontade pura. E perdi-te com o avançar rapido da carruagem. Parecias cansada. Tinhas um rosto de traços simples, e sem dar muito por isso, peguei no meu bloco e fui desenhando. E quando acabei tinha na minha folha, uma jovem enraivecida. Sedenta de sangue e justiça. Fiquei parada a olhar para o desenho. Não quero acreditar que o meu inconsciente desejava assim tanto aquela monstruosidade. Cheia de sangue. Um espada e uns olhos rasgados, tipicamente asiáticos mas grandes e esbugalhados, coisa dos japoneses e os seus animes. Aquela animes cobertos de realidades paralelas e argumentos unicos. Lá estavas tu. Triste e enraivecida, com um sabre na mao. A mensagem era explicita. Ninguem se aproximará de ti.

Segui para as aulas com a certeza que se te visse outra vez nao te reconheceria. Shame on that. Oiço a aula passar enquanto desenhava casas abstractas. Casas com setas para o chão. Com estradas paralelas que não levam a lado algum. As casas tinham setas. Setas a servirem de decoração. Apontando para o chão. Indicando o caminho certo, não tenho que desejar assim tanto o céu, se na realidade está tudo debaixo dos meus pés. Perto. Queimando-me. A aula acaba e de pensamento vazio sigo para casa. Observo tudo novamente, porque cada rosto, ou sapato... Ruas e edificios goticos, turistas perdidos que sempre dava um jeito quando me pediam indicações, os numeros dos autocarros, e as publicidades excentricas que cativavam de certa forma toda a minha atenção. Miudas. Miudos. Velhos. Gordos. Gays. Casais. Solitàrios e excentricos egoistas. Todos eles passavam pela mesma passadeira que eu assim que o sinal ficava verde. Aos empurroes. Nao usava guarda chuva. Com tanto cruzamento humano, teria que ter mesmo muito azar em me molhar até à espinha. Mesmo que pouco me molhasse, o calor artificial do metro aniquilaria tudo. No momento.
Naquela noite o meu metro não parou em casa. Assim que puxei o caderno da mochila, a minha vontade de fugir precipitou se. Desapareci em Camden Town. Fiquei ali. Sentada. De gorro enfiado até ao cachecol evitando o frio até ao casaco. Casaco por cima da camisola. Pés gelados e mão quente.
Passas à minha frente. Sozinha. Deambulando sem destino. Pois teu olhar não se prendia em nada, e os teus passos eram inseguros e sem direcção. Olhaste me. Seguis te.. E olhas me novamente. Estou ali. Estarrecida e embebecida com a coincidencia. Aparvalhadamente estagnada a olhar para ti. Reconheci te. A miuda do metro. Paras. Olhas em frente, e retendo um pouco o ar, expiras longamente... Como se não tivesses nada mais o que fazer. Estavas perdida. Sem beira. Puxas um cigarro e vens na minha dircção. O meu làpis perde o sentido, o fecho o caderno sem largar o teu olhar um segundo que seja. Sentas te na minha pequena mesa. Naquele pub giro. Castanho e cheio de boa onda e rock britanico. Servem te uma cerveja.
"Rude de minha parte?!" dizes isso com aquele sorriso manhoso, de quem sabe a resposta. Que sorriso aquele, rasgado, fazes aquelas toquinhas no canto de cada bochecha. Eu nao digo nada. Sorrio embebecidamente. Ficas mais insegura. Precisava de te ver assim. Insegura. O teu rosto mudou prontamente de feição. Li o teu medo, e disse rápido. "Marta..."

segunda-feira, 20 de junho de 2011

Pessoas! Pessoas... Vidas cruzam-se num relâmpago. Ninguem se interessa por ninguem. Ninguem olha para ninguem. Porque as pessoas não confiam em ninguem. Todos mentem. Tu mentes. Eu minto. Eles mentem. Everybody lies.

"Tão cedo sinto os teus lábios a tocar os meus, mesmo que meus pensamentos divaguem. A tua voz esta distante e tremida como sempre. Sinto-te tão perto de mim, que o meu sangue estagna. Pára! Conheci-te e agora conheço-te. Respiramos o mesmo ar e contamos as mesmas mentiras. As mesmas histórias horrendas. Insuportável tornou-se o nosso caminho rotineiro. Estou farta de pisar a relva escura e de a cortar! Os teus guisados não sabem a comida. Nunca souberam. Nunca me importei, mas agora importo me menos ainda. Tu não gostas da minha mão e puxas as calças para cima. Estas perto de mim. O meu sangue morre. Os corpos rompem se, à medida que o teu sangue fervilha nas tuas mentiras. Esgota-se o tempo dos amores. Cruzo-me com milhares de pessoas e observo meticulosamente o calçado de cada pessoa. Parece que vou de cabeça baixa. Vou a observar o calçado. Sempre me contam histórias. Os teus sapatos em bico são pretos e baços. Sem brilho nem oportunidade para falarem a verdade que envolvem secretamente. São silenciosos e não me contam histórias novas. Toda a gente usa calçado. Famílias com miúdos calçados, contam mais histórias ainda. Os pais escolheram o dobro do calçado. Existem mulheres que escolhem o triplo. Para elas, para eles, ou para elas, e para os miúdos deles e delas. E depois o calçado conta me histórias. Divago por entre as pessoas adultas vestidas de negro como as suas almas ao penduro. Porque cumprem tarefas escuras e sucumbindo lentamente disfarçam-se de almas negras apáticas. Olho os rostos e lembro-me de pessoas que eu conheci. Imagino-os com dezoito anos, como os conheci. Prefiro mante-los assim. Com os rostos joviais e repletos de sonhos, e não estas nuvens negras moribundas ziguezaguiando por aí. Perdidas do seu rumo. São todos iguais.
Troco de voo. Sento-me no meu correcto lugar. Uma miúda de dezoito anos espanhola senta-se a meu lado. Só percebo quando diz puta e conho. O resto é um emaranho de palavras e atitudes infantis. Tem um piercing no nariz e uma tatuagem na face, encostada à orelha. Troco de voo. Senta-se um velho do meu lado direito e outro do meu lado esquerdo. Ambos de fato cinza escuro. Falam para mim toda a viagem. Digo que sim com os meus acenos irritantes de cabeça. Mas não os irrito. Gostam de mim.
As arvores passam muito rápido, e as cercas. Deixei finalmente de ver nuvens cinzentas e o céu mantem-se azul. La esta a relva escura velha cansada. Velha e descomposta. A nossa cerca esta com a côr desbotada e abandonada. A casa de madeira. Atravesso o jardim a pé. O carro fica encostado ao passeio no meio da estrada. Era impossivel atravessar o pátio sem matar algum dos teus gatos. Tenho de deixar o carro no meio da estrada. Encostado ao passeio. Entro e lá estás tu. A olhar para mim com aquela cara tão apatica. Gritas, seguras-me pelos ombros e gritas. Detesto ruído. Fecho os olhos irrito-te ainda mais. Abanas-me pelos ombros e gritas. Olho para ti como nunca olhei antes, com desdem. Sem nada para te dar. Inventas histórias da mentira e olho para o teu calçado. Umas sapatilhas coloridas estão perto das cortinas que tocam o chão. Estas descalça, sem meias nem ideias nem  comportamentos. Abanas-me pelos ombros e o meu sangue finalmente fervilha, fecho os olhos. Quero gritar mas sinto-me cobarde. E lembro as pessoas que são todas negras e iguais, vazias de proveito e alegria, cheias de trabalho consumista e de horas desperdiçadas. Olho os teus olhos verdes e lembro-me de tudo... Fecho os olhos e sei porque não me quero lembrar de mais nada. Só conheces a mentira e as histórias que inventas dela. Pouso a minha mala e olho para o frigorifico enquanto permaneces na sala, soltando umas palavras agudas. Tens uma voz aguda insuportavel. Andas aos circulos em volta do sofa e levantas as mãos. Olho o frigorifico, abro lentamente a porta com aqueles movimentos mecânicos, pois a fome não me chega desde que morreste. Estas ali na sala, morta aos gritos.
Gosto das pessoas e de tudo o que é normal. Coisas comuns enchem o nosso lar e gosto. Pego numa taça de fruta que ocupa a mesa dos almoços ingratos. Atiro-a contra a janela... E tudo se parte... Os morangos e laranjas ficam espalhados no pátio. O som dos vidros a partirem-se com violência acalmam o meu batimento cardiaco. Foram dois segundos que não ouvi gritos. Seguiu-se o silêncio. Abri o frigorifico e retirei um iogurte. Estava bom, e dentro da validade. Sentaste-te mesmo à minha frente. Na mesa dos jantares. Ficamos ali, admirando a janela perplexas. Nesse dia pintas-te até bem de madrugada "a Janela." 
Eu esqueci os gritos. Porque somos todos iguais e banais. Gostei muito do quadro da Janela."

quinta-feira, 9 de junho de 2011

Deixa-me ir e larga-me a mão. Porque as coisas não nasceram para ser todas iguais. Porque os sons e as imagens misturam-se com a realidade. E o meu descernimento perdeu-se pelo meio das tuas mentiras e jogadas. Prefiro a tua simplicidade natural do que a tua apatia hipócrita.
Quando saímos naquela tarde nocturna já a Lua tinha desenhado o seu lugar no céu. As horas pareciam não fazer sentido, mas eu via beleza em todo o lado. A beleza do comum. Não estarei sozinha nunca mais, mesmo que não consigas ver a pureza do meu sistema. Inventei uma história  para nunca mais me fugires. Não ouvi tua voz toda a tarde. Sentia as tuas mãos e o teu medo.
Quando saímos naquela noite nunca imaginei que fosse a ultima.
(...)
Sentia a erva humida por debaixo dos meus pés descalços. Tu corrias à frente sem que eu te conseguisse alcançar. O teu cabelo brilhava ao sabor das cores outunais e não mais eu pensava em recessão e na estupida da crise. Conseguia ouvir a bicharada a cantar a tua musica. Tu dizias me que um dia haverias de compor um album com sons naturais. Gravado debaixo de um platano. Por entre a chuva. Sentia agora a lama a entranhar-se nos meus dedos. Liberdade de espirito. Nao sentia a minha alma, nem o teu medo. A medida que a musica fugia da minha cabeça, tu ficavas ainda mais longe, rodopiavas e sorrias para mim. O teu vestido rodava e estava todo sujo... O teu sorriso era confuso e acanhado. Colocavas a mão a frente da boca e olhavas para o céu... Olhei tambem o céu!
Desapareceras. Não te vi mais. Mas ouvia o teu riso. Mas vinha de todos os lados. Acelerei o passo... Ja nao mais te encontrava e o som da tua voz vinha de todas as arvores. Todas as gotas alojadas nas folhas amareladas. Ajoelhei-me chão. Senti as minhas rotulas serem engolidas por uma camada leve de lama. Sentia o frio da lama. Nada era real. Nem o Outono nem o teu sorriso. Nem o teu vestino nem a côr do teu cabelo dourado. Mas a tua imagem era real... Só não sei de onde vieste nem para onde foste.... 

terça-feira, 7 de junho de 2011

Não sei bem ao certo.... Traição!!!!!

Bem, eu sei que usar males para atingir fins está completamente errado. Contudo apercebo-me que ás vezes se formos guiados pelo bom censo e pelos princípios puros e ingénuos, se o resultado for errado, torna-se contudo o caminho certo. Melhor fazer as coisas certas mesmo com repercussões negativas, do que fazer as coisas erradas para atingir resultados positivos.

(…)

            “Sei que a tua amizade está impossibilitada para mim tal como o teu amor. Mas mesmo assim, adoro ver-te a caminhar descontraída, quando te vejo a sorrir ingenuamente, o meu dia fica completo.


(…)

            Saio de casa ligeiro, e ainda não sei que horas são, só sei que são horas de eu ir. Tomo um café para que os meus olhos se mexam com mais facilidade e sentir aquele gosto delicioso durante uns minutos na boca. Chego ao trabalho atrasado como sempre e espreito para o escritório, e reparo num amontoado de papeis, pastas, copos de café, o computador ainda ligado, e vários papeis soltos e espalhados por cima de uma secretária com uma pequena chapa de metal que indicava o nome “Henrique Borges”. É terrível ver assim uma desorganização á segunda-feira de manhã, mas como a secretária é a minha acho que já ninguém dá importância a minha inata desarrumação.

            Sento-me e olho para o computador, enquanto penso e recapitulo o meu fim-de-semana. Foi óptimo, festas, copos, amigos, tempo sempre preenchido. Mas quando chegava a casa com a camisa ensopada em água, e me deparava com o silêncio próprio do meu lar, sentia um vazio. Nunca ninguém tivera antes o dom de preencher este meu vazio, mas tu tiveste. Parece que às vezes sinto a tua presença a pairar no ar, o teu cheiro no quarto, as tuas mãos na cozinha, o teu carinho na sala. Pensei por momentos que tu eras aquela, a única mulher com quem era capaz de partilhar o mais ínfimo segredo, terrível ou bom, eu sabia que tu estavas ali para mim. Tínhamos programas excelentes, nunca estávamos quietos em casa, no trabalho, nas saídas, em nada. Éramos eléctricos, e nos amávamos! Mas como ridículo homem que sou, as minhas fraquezas surgiram por varias vezes, talvez tal como as tuas, e tiraram-me o alento da minha vida, o perfume da minha alma… tu! Quando me dizias entre dentes, “… que a dor do ciúme é igual tanto para o homem e como para a mulher, se o amor for de facto verdadeiro!”, eu não acreditava. Eu dizia, que “…os homens, como galantes natos que são, por vezes as traições acontecem, mas eles já não se lembram na hora seguinte quem era a infeliz da cobaia nem de onde vinha… mas as mulheres são diferentes, a traição proveniente delas, dói muito mais”. E tu, ponderando o que eu dizia, insistias para que eu percebesse “… mas a dor, que o ciúme provoca lá dentro, é igual de mulher para homem se o amor existir mesmo ”. De facto, discordávamos em muitas coisas, tu eras uma típica feminista, e eu, um típico machista! Fantásticos que éramos, foram estas diferenças que nos aproximaram, e que igualmente nos afastaram. De facto, na minha ideologia, nunca pensei, que se poderia despedaçar de tal maneira um coração, em que ele jamais tivesse possibilidades de retomar ao que era anteriormente.

            Caio em mim, e retomo á passividade do meu escritório, ergo lentamente a cabeça e vislumbro o meu chefe, especado a olhar para mim com cara de sério e preocupado. Sempre fora uns dos seus melhores agentes de campanhas publicitárias. Fazia as melhores campanhas de marketing e tinha ideias geniais para toda a publicidade em geral. Contudo, tenho vindo a tornar-me um desleixado e despreocupado. E sei que as pessoas notam, mas já não me importo mais, vou esperando que passe e sei que os meus colegas também esperam tal como eu, mas por vezes, talvez me tenha excedido em várias situações, e o enfadonho do meu patrão deve ter-se apercebido. Mas eu nunca imaginei que tu me fizesses tanta falta, nunca imaginei que pudesse ficar assim um dia.

            Aconselhou-me a pegar nas minhas coisas e tirar umas ferias, para quando voltasse não haver mais desculpas e deslizes. Sei que ele sempre adorou o meu trabalho e estava a dar uma última hipótese ao retorno da minha inspiração.

            Aceitei com agrado, peguei nas minhas coisas e conduzi em direcção a casa, e a ti. Mas o único que me esperava incansavelmente em frente á porta e abanando a cauda era o pobre Scott.”

(…)

            “Não acredito que me atrasei outra vez! Entro a correr sem olhar para as caras de desagrado dos meus colegas e peço mil desculpas entre dentes. Enquanto visto a minha bata branca ouço os latinos incessantes dos cães enquanto que os gatos se empolgam todos e fazem gemidos de leões. Não percebo às vezes este meu emprego. A bicharada há-de de ficar sempre doente de manhã. Engulo o café que me colocaram na secretária e queimo a garganta de uma ponta á outra.

            Adoro o meu trabalho e sei que o faço dentro do que se chama “satisfatório”. Mas todos os dias entro aqui, e olho para os meus clientes ansiosos e tenho sempre medo, de no meio de todos surgir um lindo labrador castanho de nome Scott que me fará uma festa interminável.

              Não quero de modo nenhum voltar a ver o meu pequeno Scott, que já fora meu em tempos, a entrar aqui desajeitadamente e desejoso por me ver. Não sei se me arrependo ou não de nunca o exigir, mas não sou assim uma rocha tão fria, e deixei parte do meu amor com ele naquele bichinho baboso. Tento afastar todos estes meus pensamentos auto destrutivos e tento trabalhar concentrada.

            O dia foi completo e passou num instante, não vou a casa dos meus pais hoje! Desde que fui morar sozinha, ficaram duas vezes mais velhos e três vezes mais chatos. Sei que as coisas não me correram bem, mas isto é a triste sina de uma mulher que amou e confiou. Agora tenho de me desenrascar sozinha e encarar a vida como sempre encarei, com alento e determinação. Entro no meu pequeno mas acolhedor apartamento. Faço a minha rotina habitual e descanso um pouco em frente á minha janela acompanhada de um chá, vendo as gotas de chuva suavemente a escorregarem pela vidraça abaixo. É impossível não me recordar de ti, das tuas gargalhadas puras e impiedosas, que me faziam rir mesmo quando não havia piada. Das conversas vazias de assunto que tínhamos, mas cheias de loucura e paixão. Adorava quando entravas em casa tu, e o Scott com lama até aos pés e iam a correr para a casa de banho e chafurdavam aquilo tudo. Arrumava sempre para ti, cuidava de ti, cozinha para ti sempre com muito carinho e tu sabias disso. Vias que fazia as minhas tarefas com dedicação e prazer, e idolatravas-me por isso. Eu fazia-as para ti. Agora, pouso a chávena em cima do televisor, e deito-me no emaranho de cobertores que tenho no sofá e não pretendo sair de casa por coisa alguma neste mundo. Não tenho qualquer tipo de vontade de cozinhar, ou de fazer seja o que for. Tenho pena de mim mesma quando me lembro de ti, apesar de tudo, ainda penso em ti e sinto o teu cheiro envolvendo-me nos teus braços! Quando te deitavas a meu lado e adormecias completamente descontraído e satisfeito eu observava a tua plenitude. Olhava para ti, e fotografava aquele momento no meu inconsciente, e logo depois adormecia eu, livre e preenchida!

            Sei que me mostrei forte e determinada, fria e decida, mas as coisas que tu não sabes…! Sabias que ainda guardo as rosas, mas agora secas e bem tratadas, que me ofereceste naquele dia no meio do nada?! Quando entraste de rompante pela porta adentro e disseste que eram para mim, eu questionei-me, e disse-te que aquele dia não era nenhuma data em especial. E tu com aquele sorriso sedutor, abraças-te me, olhas-te nos meus olhos e deste-me um beijo meigo e cheio de paixão, e disseste que é nestes dias que me amavas mais, que eram praticamente todos! Os dias sem nada, sem coisa alguma, sem data nenhuma, sem desculpa aparente, mas passados comigo, eram os dias cheios de tudo! As coisas que me dizias… Sabias que ainda durmo com uma camisa tua que sei que nunca tiveste coragem para a vir buscar nem eu de a ir entregar?! Talvez gostasses que eu guardasse algo teu, não sei. Mas lembro-me nos sábados de manhã, quando a minha cara estava sempre no auge do terrorífico e o meu cérebro funcionava a dez quilómetros por hora, em que só tinha capacidade para vestir aquela camisa tua, tu adoravas e rias-te como uma criança, dizias que tinha um ar de vilão derrotado. Eras um malandro cheio de graça. Nos dias que correm, contento-me a olhar pela minha janela e ver a vida a andar lá fora e a minha sempre no mesmo charco. Foste único para mim, amei-te e fui tua, naquele tempo em que passamos juntos.

            Agora olho com negrura e saudade para nós e para o que fomos em tempos e a nossa vidinha louca, que eu tanto idolatrava, sei que a Laura que existiu em tempos sucumbiu juntamente com aqueles dias. E adormeço lentamente com a força do cansaço e desmotivação, imaginando como estás, agora.”


(…)


            Henrique talvez tentara de tudo para esquecer Laura, quando viu a grandiosidade do erro que causou no coração de Laura e sentiu pela primeira vez o sabor da frieza e determinação que era tão própria da sua companheira. Ele conhecia-a como ninguém, e sabia que ela nunca o iria perdoar e sabia que nunca ela voltaria a fazer o seu sorriso sincero para ele. As suas mãos não mais encaixariam nas suas, nem o seu rosto pousaria mais sobre o seu! Ele desejou muitas vezes ter recuado no tempo e ouvir com atenção as palavras de Laura, as palavras que sorrateiramente saíam da sua boca e que parecendo sem significado algum, eram afinal a chave do seu coração. Fora parvo e cometeu um erro, que aos olhos de Laura era e é imperdoável. Mas a determinação dela, assombrou-o, ele sabia que Laura no seu íntimo talvez tenha sofrido, mas não tanto quanto ele. Pois Henrique ainda sofre, e ainda a deseja. Ela fora mais forte e fria, a facilidade com que ela fez as malas e foi viver sozinha deixou Henrique abismado com a força que mais uma vez a sua companheira demonstrava. Sabia que Laura saíra de casa convicta que ele errara com ela no que ele era mais fraco, e no que ela era mais forte. E Henrique sabia disso, e talvez por isso é que sente que Laura já não mais sente a falta dele, nem muito menos a vontade de o ver só mais uma vez. Talvez a tenha desiludido de tal forma que tornou a ida mais fácil para ela.

            O tempo descortinou as personalidades, destes dois que em tempos foram loucos amantes, e desenhou o triste destino.


            Estávamos numa quente noite de Verão, Henrique combinou encontrar-se com Laura num barzito perto da praia, ela chegaria atrasada do trabalho nesse dia, e eles acharam melhor encontrarem-se depois. Enquanto Henrique esperava impacientemente por Laura na companhia agradável dos seus amigos, ia bebendo uns copos e animando a festa. Teresa tinha ido nesse dia, acompanhada de uma outra amiga, a jovem Luísa! A amiga de sempre de Laura não perdia uma, sempre á espreita de conhecimentos novos no campo masculino, Teresa era bonita e aprumada, por isso tinha sempre pontos a seu favor no que interessava na matéria de homens. Os seus olhos pretos rasgados deixavam no ar o seu lado misterioso, e as suas pernas bem feitas eram um convite a qualquer um para uma saída mais extravagante. Era uma sedutora infalível e os assuntos acabariam por cair na mesa, e Henrique escutava as conquistas e situações extravagantes de Teresa com espanto e agrado. Tiago, com uma aparência de surfista e um humor desigual conversava animadamente com Diogo e com Luísa.

            Luísa, era entre as três amigas a mais reservada, não falava muito sobre si nem muito menos sobre os outros, causava sempre uma onda de intriga no ar, visto que as suas conversas nunca passavam do banal. Mas Henrique naquele dia decidiu tirar aquilo a limpo. Afinal de contas, Luísa ía inúmeras vezes lá a casa, era amicíssima de Laura e Teresa, e não conhecia ainda bem aquela miúda, e estava na hora de tentar perceber aquele cérebro feminino de uma vez por todas.

            Henrique e Luísa já bebiam copo atrás de copo, e Luísa começou a fraquejar, falava que seu irmão morrera na tropa, seu único e maravilhoso irmão como ela mesma dizia, e que a sua vida de filha única tornara-se um caos, e que desde então Laura tinha sido um apoio sublime na sua vida. Os casos com os homens que tivera não duravam mais do que um mês, tornavam-se todos possessivos, curiosos e demasiado Homens, machistas! Henrique conseguia ler pelo brilho dos seus olhos, naquela jovem mulher de 22 anos, que tivera uma vida sofrida, sem carinho nem amor, que nunca tivera um companheiro que a respeita-se nem muito menos a amasse tal como ela amava Laura. A sua família sempre a trataria como a pequena menina dos papás, de infância imortal e de presença constante, pobre miúda, seus pais ainda não haviam percebido que ela crescera!

            Contudo, Henrique percebera agora com mais certezas, o porquê do apoio constante que Laura sempre disponibilizara para Luísa. Ele sabia que a sua companheira sempre tivera aquele lado acolhedor fosse para quem fosse.

            O álcool começou a subir-lhes a cabeça mais rápido do que calculavam, e Luísa não se sentindo bem, pediu a Henrique que a acompanhasse lá fora! Ambos avisaram os amigos, e logo se aprontaram a sentar na areia ao som da rebentação das ondas, em frente ao Bar, ainda nauseados com o cheiro de álcool. Com a brisa salgada a bater nos rostos a boa disposição retomava, e fui aí que aconteceu. Que o lado fraco de Henrique prevalecera como sempre Laura tivera medo que acontecesse. Luísa começava a insinuar-se a Henrique, e confessou-lhe que o amava desde a primeira vez que se conheceram, mas que nunca dissera nem demonstrara nada antes, com medo de perder Henrique e Laura.

            Mas uma mulher perdida emocionalmente, e agora psiquicamente devido ao excesso de álcool, porque não comer o companheiro da sua melhor amiga?! Porque não haveria ela de saciar a sua fome com o homem que mais adora no mundo agora que tem uma digna e única oportunidade?! Porque não haveria ela de trair a confiança de todos os seus amigos e amigas ali naquele momento?! Porque não fazer amor com ele ali mesmo, e passar por cima da sua própria dignidade e valores?!

            Claro que uma mulher quando chega a pontos extremos é capaz de tudo, aproveitando-se do estado lastimoso de Henrique, a traição consumou-se. Ela foi-se aproximando dele e sem que Henrique discernisse bem naquele momento o que era certo ou errado, quando já ela o tentava beijar já ele estava com as mãos nas calças.

            Laura chegara, e pediu imensas desculpas pelo enorme atraso, mas teve que levar o Scott á rua e ele hoje parecia não querer voltar, estava irrequieto e farejava tudo! Cumprimentou tudo e todos amavelmente, e perguntou por Henrique. Teresa aprontou-se a dizer á amiga que Henrique levou Luísa a apanhar ar na praia, visto que a miúda estava encharcada de álcool, e com certeza eles voltariam rápido. Laura sentou-se á beira dos amigos e seguiram-se as conversas disparatadas. Mas Laura não estava bem, não conseguia ouvir com nitidez as conversas dos amigos, a sua mente estava longe, estranhou aquele comportamento de Henrique, e mais estranhava a demora. De repente, levantou-se e disse a Teresa que ia à casa de banho e voltava num instante. Contudo, a sua vontade estava bem longe daquele cubículo que fica nas traseiras do Bar, estava sim focada no areal e nas pequenas escadas de madeira que começava a descer em direcção á praia. Procurava Henrique e não o achava, era tudo tão estranho, em qualquer altura, ele estaria á sua espera impaciente pela demora. Mas desta vez não, estava a passear com a Luísa, e ainda para mais alcoolizada. Mas que peripécia! Foi então que viu dois vultos… Perto do mar, com a rebentação das ondas a sussurrar-lhes ao ouvido o pecado, a abafar o som dos movimentos! O luar sobre o ondular do calmo mar a iluminar a negrura da praia, a iluminar a podridão!


- A Laura, Teresa!? Ainda não chegou?! Onde está!? – Henrique estava ofegante e assustado. Chegou muito antes que Luísa e parecia impaciente.

- Calma Henrique, ela á pouco disse que ia à casa de banho, deve mesmo estar a sair. E a Luísa não estava contigo?! Estas todo molhado! Que se passou?! – Teresa parecia totalmente confusa com a situação, estava a passar-se alguma coisa que a sua mente perversa ainda não tinha compreendido.

- Não sei da Luísa, deve de estar para lá… precisava mesmo de refrescar a cabeça, estava a ficar degradante!

- Da cabeça aos pés?! Calma rapaz, nem parece que costumas beber uns copitos de vez enquanto.

- Mas então a Laura já esteve aqui?! E esperou muito tempo por mim?!

- Nem por isso Henrique, contamos o porquê de não estares aqui e ela decidiu esperar por ti aqui! Mas afinal o que se passa aqui!? – Teresa estava a perder o fio á miada, olhava incrédula para Henrique e passava os olhos para a mesa, onde Diogo e Tiago escutavam a conversa também com um pouco de surpresa estampada nos rostos.

- Ela nunca mais vem… tens a certeza que foi à casa de banho!? Não se passa nada, só estou um pouco ansioso!

 - Ansioso?! A Laura só foi à casa de banho, e tu tas ansioso?! E a Luísa que nunca mais aparece. Deixaste-a sozinha?!

Até que então, alguém se levanta e usa um tom de voz forte e decidido:

- Mas onde se meteu afinal a Laura e a Luísa?! Vou procurar a Luísa, e tu Henrique em vez de fazeres tantas perguntas, nada como ires bater à porta do WC feminino – Interveio indignado Tiago, a começar a achar estranho também toda aquela situação, o seu amigo apareceu sem qualquer vestígio de Luísa, mas pelo menos bem mais lúcido, completamente encharcado de água salgada e com uma cara de puto quando faz borrada! Ligeiro e decidido saiu em direcção á praia em busca de Luísa.

Ficaram todos pávidos a olhar para Henrique, que permanecia no mesmo local, em pé e com a mesma cara de assustado. Algo estava de facto a passar-se ali e ninguém estava a conseguir perceber. Perante a situação, Diogo pergunta a Henrique se ele estava a sentir-se bem e senão seria melhor sentar-se enquanto que ele chamaria por Laura. Henrique respondeu negativamente com a cabeça, e foi caminhando lentamente em direcção aos fundos do Bar. A música ecoava nos ouvidos de Henrique e proferia sons estranhos para o seu cérebro. Henrique estava desnorteado e com receio de bater à porta e ninguém responder, já não estava em nenhum bar, estava num túnel escuro sem qualquer saída… a menos, que alguém respondesse á porta! Foi então que chegou enfim à porta daquele complexo feminino, tentou aprumar-se um pouco. Dera um mergulho no mar, quando acordou e vira o que tinha feito. Queria lavar-se daquela sujidade.

Bateu bem leve na porta e uma voz feminina sussurrou umas palavras que não se ouviram minimamente, pois parecia que vinham de dentro de uma caixa de madeira. O seu coração ficou em pulgas. Estaria Laura ali, e não tivesse visto o espectáculo medonho!? Teria ela nunca dali saído e ele estava apenas a endoidecer com o sentimento de culpa?! A sua dama estaria de facto ali…?! As suas emoções estavam a mil, e a porta começou então por fim a abrir-se, por detrás saiu uma natural e descontraída figura feminina, mas a de Luísa. Especado e completamente perdido, Henrique entrou quase em choque. Mas que desilusão! Laura não estava ali, Laura havia ido embora, e porquê?! Porquê?! Teria ela visto!? Será?! Não podia ser… Henrique recusava-se a acreditar. Mas quando olhou novamente em frente era sim, Luísa que o olhava com medo. E sem nada dizer, Luísa desapareceu pelo corredor, com a gola da blusa a esconder-lhe a face direita e a sua mala tombando para todos os lados com a pressa de movimentos, como que tentando esconder a vergonha e a situação que causara, não só para os outros mas para si própria também.

(…)

….


- Porquê Laura?! Se eu te amo mais do que tudo, porquê!? Se te quero e desejo mais do que tudo porquê?! Eu não queria nada disto… Tu não merecias nada disto, eu sei! Mas perdoa-me! Perdoa-me… porque o coração não sente o que o corpo faz, e o meu coração só te sente a ti!


Um choro miudinho, desenlaçou as palavras mais duras que Henrique poderia ter ouvido:

- Porque te adoro demais, e foste e tens sido a minha vida e vivo para ti, mas… mas quando um coração parte, e se estilhaça em mil pedacinhos, jamais ficará como anteriormente, jamais os meus olhos olhariam para ti da mesma forma, já mais eu confiaria em ti… jamais o meu coração bateria da mesma forma, não mais a minha saliva secaria com o frenesim de te amar… magoas-te me! Como que alguém fica paralítico para sempre… não me procures mais! Nunca mais!

sexta-feira, 3 de junho de 2011

Conheci-te naquela noite e fiquei à espera que me surpreendesses de alguma forma. Queria conversar sobre coisas impossíveis e ridículas. Não queria saber do tempo. Nem do que tu ou eu fazíamos. Ou não fazíamos. Falas-te me de croissants, e eu contei-te uma história ridícula. Falei-te de vestidos aos folhos e tu contaste-me uma história aparvalhada. Conversa de café. Conversa de almoço. Conversa de pub. Eras um rapaz estranho ao qual nada me cativou. Cara redonda repleta de barba. Cabelo todo desconcertado, super nervoso, inquieto e curioso demais. Alto e magro. De cara redonda e ideias idiotas. Não conseguia perceber de que região eras. O teu britânico, cheirava a Londres, mas com alguma rebeldia de Manchester. Não perguntei nada sobre ti, não te podia dar esse prazer de interesse aparente. Mas estava ali quieta à espera do autocarro e tu perguntaste me para onde ia o autocarro, após a minha resposta tu disseste:

"hum.. Ok, pode ser!"

Viras-te as costas, e lá continuas-te a comer uma mistela de coisas estranhas que trazias na mão. Não pude evitar um sorriso. Olhas te novamente para trás e fixas um olhar curioso em mim. Ofereceste me a mistela, que nem um miúdo de cinco anos quando tenta abordar uma miúda, oferecendo lhe o lanche. Era como dar quase a própria vida. Disseste que tu mesmo o havias cozinhado. Sabia a laranja dizias tu, apesar de me parecer uma sande de peixe. Tinhas uma guitarra às costas e um olhar tímido, que fugia do meu olhar a toda força. Que personagem curiosa, pensava eu. Disse-te que poderias ser um terrorista, ou um burlão, e não podia falar contigo. Nem muito menos partilhar o lanche. Por isso, entrei logo no primeiro autocarro que parou, e que nada tinha a haver com o meu destino. Tu prontamente retaliaste:

"Nunca confies em estranhos!! Hum... Mudança de rota... Ok. Pode ser!"

- Pedro!
- Laura!
- Local de saída?!
- Incógnito.
- Hum. Medo de estranhos?
- Medo de mim!?
- Eu não, e tu?
- Por vezes.
- Hum.. Danças?!
- Agora?!

Ele prontamente toca na campainha, e agarrou-me a mão. Enfiou o resto do lanche no lixo e saímos em New Oxford Street... Lá estava o Salsa. O pub mais latino da região. Nem queria acreditar que um estranho acabava de me colocar no autocarro errado, no tempo errado, para sair na paragem errada, para dançar salsa! Entramos e as nossas mãos dançaram ao som das batidas latinas, acompanhando o balanço da anca e dos nossos passos. Não falamos. Não me perguntas-te nada. O silêncio não te aterrorizava. Sorrias e parecias um miúdo de quinze anos. Fazias-me rodar. Fazias-me rir com o teu empenho. Rodopiávamos tanto que só conseguia ver nitidamente o teu rosto. Todo o resto era um jogo de cores e rostos distorcidos. Nem sei se existiam lá pessoas. A decoração sei que era verde. E vermelha. Azul. Amarela. Roxa. Tu não tinhas camisa às cores. Tinhas a barba grande, a cara redonda e uma camisa cinza dobro do teu tamanho. E passamos a noite a trocar as mãos. Bebemos umas "caipirinhas" da cultura latina. E trocamos mãos. Passos. Suor. Cantos. Mãos. Bailamos a sensualidade toda a noite. Sentimos o desejo primitivo.

Sem pensar, desaparecemos dali da mesma forma que entramos. Lá fora parecia ouvir o mar. Parecia ouvir as guitarras japonesas, esticando as cordas de tal forma, que o som provinha maioritariamente do toque da corda contra a madeira do instrumento, do que propriamente o seu vibrato. E eu queria puxar essas cordas e deixa-las chocar violentamente. Ouvindo o mar. Sentido o teu conforto. Passamos o Homem de Ferro a correr. Sorrias. Gritas-te ao Homem de Ferro. Imitavas tudo o que vias. Lá estavas tu. De indicador para o ar que nem o Homem de Ferro. Chegas-te perto. Os teus olhos avelã agora estavam bem atentos. Não queria interessar-me por ti. Tu tinhas medo de mim igualmente. Escondias as palmas das tuas mãos de mim, como se me escondesses a verdade. Mas os teus ombros sempre estavam na minha direcção! Mas eu tinha medo de uma pessoa tão interessante e incomum. Pedro. O autocarro parou mesmo atrás de mim.

- Não venhas.

Ficas-te parado. Como um miúdo a quem se tira o chupa. Não te conhecia. Mas eras respeitável. De ombros descaídos e os braços baixos, as tuas reacções para mim eram uma surpresa constante, agradáveis ou não, parecias sempre ser genuíno! Mas não vieste. Não acenaste. Não piscaste os olhos. Respiravas com vontade, o teu peito suspirava de tensão. Endireitas-te o saco da guitarra às costas, colocas-te um gorro velho que praticamente só deixava a barba de fora, acendes-te um cigarro, e expiras-te com vontade. Muito calmamente de sorriso meigo, começas-te a acompanhar a direcção do meu autocarro. Foi quando consegui perceber nos teus lábios as palavras...

"Fico à espera."

E ficaste estacado no chão, a ver o autocarro a contornar a esquina. Quieto e sereno. Não sei se estaria à espera de um outro género de reacção da tua parte. Mas eras um estranho muito estranho. Agarrei-me aos livros com força, e poisei o queixo neles, fitando o chão pensativa. Estava sentada no ultimo banco enquanto me deixava ir sei lá eu para onde. Meu medo só me dizia para eu ir. Fugir. Desaparecer. Porque causavas-me arrepios e fazias as minhas mãos tremerem. E eu não sei quem tu eras. Naquele dia, levava um sorriso comigo. Levava o teu. E de repente os chavalos no autocarro começaram a cantar um hip hop sereno, com bits e sons vocais. What a day! What a day!

segunda-feira, 30 de maio de 2011

  Uma re-conexão rápida de sistemas. Os pontos voltam a colidir. Os enormes lasers espaciais colidem uma vez mais. Conectando-se. Infiltrando-se. A energia explode pelas veias. Tudo treme e flui. Tudo está vivo. Mas o enigma continua sem paradeiro. Vagueando na outra dimensão sem qualquer tipo de conexão! Sem contexto, o enigma vai caindo daqui para ali. Sem lasers para lhe apontar o caminho. Sem a energia. Sem...

(...)


  Acordei com a cabeça a latejar ao som do relógio. Conseguia ouvir o tic tac perfeito! Um som, praticamente inaudível pela maioria das pessoas. Mas ele fazia tic e depois tac, muito alto. E fazia explodir a minha cabeça. Coloquei-o debaixo do colchão. Range. Algo range e arrasta algo muito vagarosamente. Com passos curtos a pessoa larga o arrasto, oiço um som seco. Deixam cair a carga, e uma quantidade interminável de portas começam agora a abrir e a fechar. Abrir e fechar. Agua pelos canos. Agora decidiram tomar banho. Perfeito, consigo ouvir a água a percorrer os canos todos daquela casa. Era como se fosse oca. Oca! Mas mantinha todos os elementos da casa de uma certa forma, conectados! Interligados à força, visto que até o autoclismo era audível. O meu companheiro de quarto abre a persiana, aqueles primeiros lasers de luz quase que me matam. Respiro para não matar ninguém. Expiro para não maltratar ninguém. Ele adora fazer barulho de manhã. E cumprir de forma devota toda a sua rotina diária. O que significa que para mim acabou-se o sono. Levanto a cabeça com brusquidão a ver se as ideias começam a surgir. Nada. Apenas observo as coisas ao meu redor à espera que algo aconteça. Como se nunca estivesse estado ali. Coloco-me de cócoras e preparo-me para cumprir a minha rotina matinal também. Ainda sem acender o cigarro a Dona Sarah já me está a trazer o café. Diz-me que estou atrasado. Fala-me do tempo, e pergunta amavelmente se venho jantar. Deixa-me em cima da cama alguma roupa limpa, mas toda amarrotada, pousa a tigela de café próxima do rádio. Eu fico a observá-la. Os seus gestos são amáveis assim como a sua figura. Uma sensação quente de conforto preenche-me e sensação de insónia desaparece. Digo que sim a tudo, dou o primeiro trago no café e a primeira puxa. O João auto pulveriza-se de perfume, e começa o ritual em frente ao espelho. Ele tem sempre tudo cuidadosamente arrumado e funcional. Começa a largar uns latidos sobre uma coisa qualquer, que tinha a haver com fumo, e não sei quê… Estava demasiado ocupado a fumar para ouvir o que ele disse. Quando ele parte finalmente todo sorridente, para a cozinha posso ouvir as conversas intermináveis que ele tem com a Sarah. Ou melhor, as conversas intermináveis dele, ao estilo monólogo! Mas lá sempre se acaba por ouvir umas palavras de Sarah a terminarem uma por outra frase dele… para dar um certo clima ao monólogo do rapaz.

  Dou comigo a comer uns cereais ensopados em leite e com os olhos verdes da Dona Sarah fixados em mim. Sorrio. Não digo nada. Os meus pensamentos ainda não estão correctamente organizados. Fico vidrado por uns momentos no televisor. Nos programas infantis. Sem pensar. A Dona Sarah desaparece. O João bate a porta. Sossego. A casa emadeirada, começa então a esvaziar-se. Os rapazes e as raparigas foram estudar e trabalhar. E eu tenho de decidir o que vou fazer. Observo o silêncio na cozinha. É genuíno. Não existe espaço para nada em cima dos balcões. A escuridão transmite-me que o dia é chuvoso. Perco a vontade de ir seja lá onde for. Quero ficar ali. Adormecido. Embevecido com o conforto da casa de madeira oca. Aquelas paredes guardam conversas de todos os tipos e tamanhos. Contas as histórias que eu quero sentir.

  Então que oiço as teclas do piano. Nervosas. Muito nervosas. Rápidas e barulhentas. Eu percebo a inquietação de Sarah. Uma sonata de Beethoven. Daquelas nervosas. Em que os dedos parecem confundir-se uns com os outros de tanta pressa. E as mãos empurram as teclas ora com brutalidade ora com suavidade. Mas com muita pressa. Feliz de quem procura a expressão. A Dona Sarah sempre está mais nervosa à segunda-feira, e depois fica ali duas, três horas a pensar sabe se lá no quê. Ela não me diz. Mas eu acho que ela podia ter sido famosa. Porque aquele Beethoven que eu ouvia… Aquela vontade toda fluía por entre os corredores velhos, e ouvia-se pelas entranhas todas da casa. A raiva e o amor. O ódio e a compaixão. Era como se os dedos de Sarah tivessem viajado por toda a Europa durante a segunda grande guerra mundial. E os ecos dos pianistas de leste ainda se ouvissem nestas paredes de madeira velha e escura. Madeira reluzente de vidas alheias. A mestria de um artista não se mede só pela sua qualidade de execução da peça. Mas pelo seu propósito. Pela paixão. Pela verdade da sua vontade. E a Sarah expelia sentido quando tocava. Não me quero sair da casa. Daquela casa atulhada de tudo. Onde o desejo reside, e as peças são tocadas para ninguém. As peças são tocadas para fervilhar o sangue nas veias e bombeá-lo com o nervoso miudinho para o coração. A Sarah sabe que estou ali e que a minha presença é reconfortante para o mundo dos mortos e das almas sem poiso. Não julgo a indecência e loucura e prazer e desejo e ignorância de ninguém. Por isso aquelas paredes respeitam me, e os dedos da Sarah perdem-se na sua própria magia… A magia do coração de um artista. Sem ganância. Sem mérito. Sem proveito. Sem propagandas. Sem elogios. Sem nada… Ali sozinha, envolta de filmes e livros, de retratos de pessoas que por aqui passaram e jamais voltarão. Sem julgamentos inoportunos. Sem motivo aparente… Fico ali. Estarrecido. Vivo e quieto. Sossego…

terça-feira, 17 de maio de 2011

Os minutos...
Dois minutos...

Hey. Como me dói a cabeça de tanta entulhice! A velha dos olhos verdes. O colchão estava poisado no chão. E havia gatos por todo o lado a olhar para mim. Era um intruso. Motivo de curiosidade. Parecia que estava em Portugal outra vez. Portugal. Portugal é a minha casa, no entanto...

- O menino está melhor? Trouxe alguma coisa para o menino comer. Não tenho cama para hospedes sabe. Desde que esteve tanto tempo fora, acabei por vender parte da mobilia. Ninguem parece querer viver com uma velha.
Eu morava ali. Não consegui dizer palavra alguma. Estava atónico. Afónico. Daltónico até. Porque era tudo muito negro e cinzento. Daltónico. Parvónico.

- Minha Senhora. Lamento, mas deve estar com algum problema de memória... Chamou-me Pedro, e eu estive tempo fora... Não entendo.
- O menino Pedro certamente que andou metido em grandes sarilhos. Esteve fora 4 anos... Ouvi rumores que tinha voltado. Mas nunca o imaginei encontrar naquele estado.
Olhei o meu corpo, duia-me tudo. Estava cheio de nódoas negras. Levantei a calça muito lentamente na zona do joelho. Até tinha medo do que ia ver. A dor latejante vinha dali. Uma enorme cicatriz. Parecia recente! Começou a doer-me terrivelmente a cabeça... Deitei. Olhei a minha mão e ela tremia. Tremia. Que raio. A velha pousou o chá e saiu sem dizer uma palavra. Parecia que levava um pouco de tristeza consigo. Daquela tristeza genuína. Que dói... Sem mais, tomei a pastilha. E foi como se tivesse desmaiado.

segunda-feira, 16 de maio de 2011

As ambulancias ecoam enquanto as cordas tenta sair. O metro passa e as pessoas vão e vêem. Para trás para lá. As vozes são roucas. Agudas. Magras. Silenciosos. Despercebidos eles sempre passam por mim. E eu só vejo as barreiras entre nós. Caminho sempre em frente até deixar de as ver. Elas sempre passam por mim a grande velocidade. Imagem distorcida pela velocidade da imagem. Sao obliquas e agora fantasmagóricas. Live the horror here. Live it. As emoções. Sensações. Entro num autocarro e não me lembro o que estou ali a fazer. Agarro-me aos varões porque vejo toda a gente a fazê-lo! Forget the horror here. Saio a seguir. Ruas. Som barulho e uma explosão de emoções dentro de mim. Que ânsia de atingir qualquer um propósito. E estou ali. Sem propósito algum. Só sinto os instinctos. Ouço som melódico. Ouço uma voz máscula meiga. Suave. É um chapeleiro a tocar no chão á chuva. Numa esquina. proferindo "youll get better". Moedas. Meto as mãos aos bolsos. Eu devia de ter dinheiro. Chuva. A minha unica ideia era fugir dos prédios. Só sabia que tinha de fugir deles porque ali não era a minha casa. Minha casa. Onde é minha casa?! Fugi todos os dias seguintes. Faminto e sujo. Fade and return. Onde vou!? Desmaiei num canto. Esfomeado. Quando abri os olhos lá estava aquela velhinha de olhos verdes enormes olhando para mim. Dizia Pedro. Pedro. Pedro. Casa?

sexta-feira, 6 de maio de 2011

Há sons e movimentos que não os interpreto. Mas há sensações que não preciso de pensar na sua definição. De quando passo a mão pelo milho ainda jovem. Quando me esqueço que tudo isto não passe de um sistema infinito de controlo de mentes. De coisas que não precisamos. Porque o que precisamos é de sentir as sensações. As emoções que as coisas produzem em nós. As almas que sentem são humanas. E desumanas. Mesquinhas. Egoístas. Puras e humanas. Seja o que for. Tudo procura o mesmo mas em coisas diferentes. Muitos têm a alma poluída de ideias erradas enfiadas à força por este sistema manipulador. São muitas horas e minutos e dias que vivemos apenas e só conosco mesmos. Só o "eu". A toda a hora. Abstrair, pensamos nós. Entreter. Medo do tédio. Da paz interior?

quarta-feira, 20 de abril de 2011

-O telefone não pára de tocar!
-Já disse que nao atendo.
-A tua mão já está a tremer.
-Deixa-o tocar... De interesse ou não.
-A tua mão continua a tremer...
-Hoje estou nervoso, isto acalma já.
-Faz um ano.
-Não quero saber de datas. Isso é uma mesquenhice.
-Não acredito.
-As datas jamais são repetidas. Infinito são os dias. Nunca se repetem em nenhuma parte do universo. E quem nasceu a 29 de Fevereiro!? Não festejou este ano pelo menos.
-Argumentativo até demais. Esconder algumas verdades.. Talvez...
-O tempo não volta atrás. As datas são coisas inventadas. Servem de orientação.
-Não dúvido que tenhas alguma da tua razão.
-Amarras-te a Sky?!
-Sim. Ela passou todo o dia a meditar já que chegue. Hoje vai-me levar lá baixo. Vens?!
E ouve-se o estalar da lenha seca, ambos olham na direcção da lareira. O fogo intensificou-se. Segue-se uma onda de calor reconfortante. Olham um para o outro.
-Whisky?!
-Sim por favor.
A casa range. Os passos do Pedro são rápidos e empurram o soalho com força. A sala fica no meio da casa. Por isso as pessoas são sempre facilmente detectaveis. O rui comtempla as fotos do lado esquerdo da lareira. Duas ou três deveriam de ser capa da National Geographic. No entando estão ali. Sós. Dançando com o movimento laranja das chamas. Intocáveis. As tais...
-Tens a minha samarra?
-Tenho. Mas esse copo ajuda a aquecer.
Um copo de um uísque velho combina com o ambiente dourado da sala. E a janela abre de rompante com o vento! As cortinas são suaves, brancas e o vento produz nelas movimentos estranhos. Irrepetiveis. O pedro. Com o braço debruçado sobre o sofá, leva o charuto à boca. Observa vagamente o céu, enquando caminha descontraidamente na direcção da janela. Fecha-a muito lentamente. A sua mão já não treme.
-As estrelas estão mortas pah.
-Quem?! O kurt Cobain?!
-Uma delas! Sinto mais pelo Ian curtis...
-Ian Curtis... Enforcamento é sempre outra cena. Mais corajoso!
Segue-se momentos de silêncio. Sorriram um pouco, cada um para si. E deixaram-se ficar. Deixam-se muitas vezes. Não falam. E estão bem. Nenhum dos dois questiona.
Mas estes pontos sempre brilham, parecem mesmo vivas, já morrem há anos pois.
-É como olhar estas estrelas mortas! Vejo-as mortas, e contudo gosto de olhar para elas e acreditar que estão vivas... Mesmo que lhes tentasse tocar e se desvanecessem...
-Vai buscar então o Suka porque a Sky é minha hoje!
O pedro pegou nas botas mais lamacentas e uma camisola dobro do seu tamanho, velha, de um azul sem energia, e preparou o Suka. A mão não treme. Nem os pensamentos. Segurando firmemente um cavalo cinza cheio de vida e força, o Rui já não se vê.
(...)
O rio deve ser o destino mais provavel. Costumavamos lá ir em miudos. Agora atravessamos aquilo de cavalo mais rapido que um barco. Se bem que esta noite alentejada esta estranhamente gelada. Meus cavalos. Datas. Todos os dias se celebra uma qualquer coisa. E se as coisas não fossem assim!? E se as pessoas simplesmente não anotassem datas, nem lhes dessem quaisquer importância?! Os meus cavalos são a unica coisa que celebro e me dedico por inteiro. De corpo e alma. Não me vou sentar numa cadeira a olhar uma foto e relembrar a data. Fazer um qualquer tipo incomum de cerimónia e fingir a dor do momento passado. Desculpa, mas sabes que não sou... Não sou tudo disso! Posso sim olhar os olhos dos nossos cavalos e ver-lhes a ternura e fidelidade que outrora enchiam os teus. Galopar... Fechar os olhos e desaparecer da condição fisica por uns momentos e só sentir a alma cheia de ti...!

quarta-feira, 13 de abril de 2011

I can’t remember!
And I can realize now...
What is fate and or is lie!
Fate is the lie!
I heard the soft chords from your memories…
Suddenly I figure out everything!
We have moments for life.
And life for moments!

Always there will be white lies!
Now, deny me please.
What was done is now undone!
Doesn’t matter when or with whom!
The chords always tell me the truth beneath your eyes.
Why don’t you change the secrets now, and they will become white lies!
Change the damn chords and don’t sing to me anymore!
Take me out these old feelings.
From old moments. From unreal friends!
Unreal truths! Unreal moments!

Everything it’s made to never last!
And I still like the chords from your memories.
I still see the white lies beneath your hair!
Beautiful lies. Horrible truths!
Ugly girls always come to me and say:
“Stay with me, sing me a chord and tell me a joke”
Unbearable. I always kept my silence. Fade and return!

Return and fade out! I wish I could take a picture to what was our moment!
Moments which never last.
They’re always will be in a rush!
In a rush for you!
They never last for me. I have no fate throw my shrink path.
And no one cares about it. I’m locked in my truly soul!
My lonely undeniable truths, and my alone moments. Real moments.
That’s what my life is made out!
Undeniable truths about unbroken lies!

terça-feira, 12 de abril de 2011

Abalroado!!!

Fico sempre a olhar as pessoas. Observando suas mesquinhices que se perdem com o tempo. Os olhares trocam-se como relâmpagos. E vejo engates, traições, amores, paixões, casualidades e desespero da solidão. Fico sempre a observar os comportamentos destas pessoas. As que preferem descafeinado ao café. Das que preferem silêncio ao desconforto das conversas de casualidade. Das que preferem pensar do que falar. Ou ainda uns outros, que passam horas a argumentarem uns por cima dos outros que nem uma tourada sempre a enganar o touro. As suas mesquinhices. Uns preferem álcool cor de laranja outros cor de rosa. A música tem o mesmo bit durante horas a fio. As mulheres são lindas e parecem mascaradas. Atoladas de pinturas e mais não sei quê. Os homens mais simples mas mais pudicos nas ideias.
Fico sempre de cotovelos no balcão a imaginar quem poderia me fazer companhia. Ninguém. Ou alguém como eu. Ou seja. Ninguém. Olho o meu copo de Whisky e ainda está meio cheio. A cor dourada dele desperta-me a vontade de lhe roubar mais um trago, e ficar ali, especado, a observar aqueles vultos. Cheios de nada. O pub até que é agradável, fico no centro de Chinatown e tem uma árvore no meio. Tem dois pisos e um terraço onde a malta vai fumar. E uma larga arvore a perfurar todo o pub! E as pessoas lá vão ziguezagueando por entre mesas, a arvore, corpos e copos…

Vou-me embora. Ou vou para o quarto. Já não sei onde fica “embora”. Mãos nos bolsos, e a chuva e o frio curam-me dos efeitos tardios do álcool. E o teu rosto já está na minha cabeça outra vez. Começas subtilmente a aparecer que nem um fantasma assombrando os meus medos. O teu rosto pálido a olhar o chão. Apareces-me ensanguentada. De vestido branco e a flutuar no Thames. O Rui por esta altura já deve estar em casa. Com aquilo. E surges novamente como um flash. Como o primeiro flash que disparei na tua direcção. Não te consigo fugir. Os meus pensamentos são imagens. Momentos. Mesquinho que sou. Cobarde por não imaginar sequer o que te levou a ir sozinha a Camden Town. Quem foste ver. Porque não sabia eu. O teu rosto olha para mim com um certo sorriso. E no segundo seguinte sou abalroado por um carro. Uma enorme pancada nas pernas sinto o meu corpo a voar…e…

segunda-feira, 11 de abril de 2011

"Cheguei a Londres na semana passada e já estou de partida. Sei que por ventura a culpa será toda dele. Dele não é. Mas eu sei que se aquela miúda nunca tivesse vindo com ele… Não lhe posso dizer isso. Mas cada qual se afecta á sua maneira. Mas está na hora de voltar a Portugal. Quero sentir o cheiro da terra batida do Alentejo. As noites geladas e os dias quentes. Quero beber os meus bagaços uma vez mais com a malta da tasca de lá de baixo. Dar de comer ao meu cão. E apanhar umas ondas daquelas que vemos o Sol tentar atravessar o azul corpo dela. A outra miúda morreu. Não há nada a fazer. O impacto do resultado daquele documentário que outrora se encontrava em produção, foi catastrófico. Como se já ninguém tivesse mais boas ideias. Como se as boas ideias já não existissem mais. E quando uma aparece… Zau. Vamos roubar! Nós compramos. Nós patrocinamos uma parte. Eu patrocino a outra. Aquele outro quer produzir. O outro assegurar! As editoras não têm mãos a medir. E é uma batalha campal entre agentes. E o Pedro, com o resto do guião fechado. Ali. Na parede ao lado. Fechado. Calado. Como se quisesse desaparecer e não conseguisse. Ele teve uma boa ideia de facto. Hum, mas não deixo de acreditar que melhor ideia, é mesmo não se ter boas ideias. Pelo menos nos dias de hoje fica tudo contaminado à nascença. As ideias são exploradas até não restar mais nada de interessante nelas. E tornam-se sobre valorizações. Coisas fúteis. Ideias sobre exploradas! Guardá-las é preferível. Talvez, pós-morte se libertem a preceito, melhor será deixar o vento leva-las. Sem alterações. Porque autor morto, conto fechado! Quem souber soube. Mas ninguém rouba a mortos! E a ideia permanece intacta. Sem alterações. Ou continuações. Ou abreviações, ou deteriorações. Eu não posso nem vou tentar fazer mais nada. Sei como é. O que é, é o que é! O Pedro parece ter-se esquecido desse conceito. Ele e a sua ideia. Não a vai largar nunca agora. A morte dela veio como que de uma flecha. Queriam mesmo dar cabo dele. Matar-lhe o conto. Roubar o materialismo a um zombie. Uma pessoa sem alma e com ideias. Foderam-no bem fodido. Essa é que é essa. E eu vou-me pôr a andar para Porto covo e deixar-me desta merdas das divagações. Pelo menos vou com a missão de levar o manuscrito original. Que me separa de culpas de deixar o Pedro sempre sozinho. O guião que todos leram. Das ideias únicas. Pura genialidade."

quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ilusao

"Vejo-o como se tudo perdesse interesse. Recordo-o como se estivesse mesmo lá. Meus tempos. Quando as guitarras eram calmas e minuciosamente bem tocadas.... Ouvindo-se umas poucas notas sossegadamente bem tocadas. Os pensamentos mesmo que renegados, insistem em voltar, e eu deixo-os entrar. Fluir em mim. Era tudo naquela casa negra. Naqueles terrenos cheios de diferentes verdes. Os terrenos da família Japonesa. Eu era sempre recebido a cavalo. Eu ia de cavalo. E atravessava contigo aqueles campos aos trambolhões em cima do coitado do animal, de tão desajeitado que sou. E que viagem era! Enorme, mas lá o meu traseiro se habituava à dor, tinha de manter a postura á tua beira. Jamais fraquejar! Jovem e burro. Mas sempre lá estava a aldeola. Num vale. Cheio de barracas de madeira e casas de madeira. E cestos de madeira. Brinquedos de madeira. Ferramentas de madeira. Enfim.... Tudo muito artesanal. Menos a alma. Ui, a alma deles. Era como se eu passasse de um mundo de zombies para um mundo humano. Não que achasse que conseguisse ali sobreviver muito tempo, mas o que é certo…. A alma deles foi algo que trouxe e sempre estará comigo. Saya. Eu era jornalista e jovem, e burro. Não via as coisas mais simples baterem de frente com os meus olhos.


Ali chegava apenas um sinal fraco para a televisão e redes telefónicas! Bah, segundo eles, nunca foi necessário! Então lá tinha eu que tratar incansavelmente do meu mundo electrónico antes de me refugiar naquela ilha japonesa. Manter tudo actualizado e até tentava soltar umas previsões ridículas ao meu editor e ao meu director da revista, mas só assim eles e eu, conseguíamos superar o meu apagão dos dias seguintes. Eram sempre muitos dias de apagão. E lá ficava aqueles dias contigo e com eles sem hesitar. Aqueles dias que lá ficava contigo e com os teus. Jovem e burro. Que dias bons eram esses. Valores humanos. Confiança e devoção. Obediência e calma. Integridade e honra. Lá aprendíamos a cuidar das almas... Eu passava os dias a jogar futebol com os miúdos e outros jogos estranhos que lá eles me obrigavam a aprender. Ela passava os dias a tratar dos animais e dos miúdos. A mãe e o pai trabalhavam nos campos, e os tios e avós e sei lá quem mais. E era tudo uma enorme repartição de tarefas muito bem concebida naquela pequena vila com apenas duas famílias os Katsymoro, a família de Saya e os Sukutayo...


Mais fantástico ainda que tudo, eram os teus cabelos. Que te desciam pelo rosto. E tu deixavas. Longos. Que longos eram. Nos inícios sentava-me à tua beira e eu ficava a ver a tua boca a soltar palavras. Não sei o que dizias. Mas adorava ver o movimento lento dos teus lábios. A textura da tua pele. Tua pele era... Era a tua beleza tão incomum e tão tua! Assim só podia ser concebida muito longe das nossas sociedades modernas enraizadas de maus vícios e sobrevalorização das coisas... Os teus olhos mostravam a verdade que navegava na tua alma. Não olhavas à confiança, mas olhavas me porque querias confiar. E passei assim os melhores dias de sempre. Com um espectro feminino dos mais perfeitos que um estúpido rapaz de 23 anos poderia ver em tão curta vida. Á noite, no teu alpendre tomávamos um chá de umas ervas manhosas. Eu fala-te das coisas absurdas da sociedade moderna, e tu lembravas me sempre que a televisão da sala funcionava muito bem. Mas sempre a surpreendia com qualquer disparate... Fumava sempre dois cigarros, enquanto observava o queixo dela a recostar-se no peito... E aqueles olhos. Os teus olhos. Tão rasgados. Puros. Negros da cor do carvão. Como o teu cabelo. Negra de pele branca.


Meus amigos, dois conhecidos, três colegas e um familiar perguntavam-me uma vez por outra o que andava ali a fazer tanto tempo sem dar sinal de vida. Deixavam-me um mail, que só lia quando íamos à cidade aos fins de semanas, uma vez por mês. Que nem há uns 100 anos atrás. Era agradável. Mas como precisávamos de quase um dia inteiro para lá chegar e ainda tínhamos de ficar alojados em qualquer sítio que estivesse disponível à calha no centro da ilha de Shikoku, era uma viagem cansativa e dispendiosa.


Mas enquanto eles lá vendiam as suas coisas que brotam da terra de nomes muito exóticos, eu bloqueava-me no quarto enfiado no laptop o dia quase inteiro nas actualizações necessárias ao mundo exterior. Não porque precisasse de o fazer, mas porque o tinha. Dizia que estava vivo ao mundo finalmente. E enviava alguns relatos sobre a minha experiência. Mas não podia falar de ti… Nem… então o que lhes dizia?! Qual era o sentido daquela reportagem?! Dediquei-me a um documentário. Sobre os valores humanos quase extintos e a dependência que a sociedade nos causa, como que um vírus imune. E mentia ao meu director. Como quem sabe mentir profissionalmente. Mas eu só queria falar do som do vento quando chocava no teu rosto. Dos teus vestidos brancos, que quando ao Sol, conseguia ver as linhas perfeitas do teu corpo. Queria falar do calor dos abraços dos miúdos que me esmagavam o pescoço cada vez que um se deitava. Quem não sente. Não vive. Então para quê divulgar mais uma história banal!? Como explicar aquele calor terno se nunca vai perdurar!? Eu sabia que meses depois estaria tudo no mesmo lugar. O meu quarto branco. O meu café cheio. O meu pão seco. A minha pasta e o laptop. O meu carro. A minha estrada. As habituais escadas. O habitual escritório. Ouvir o meu nome trinta vezes por dia. Depois as habituais histórias sem intensidade. Mais um café. Umas piadas com as colegas atraentes e um cigarro. Trabalho desnecessário. Coscuvilhices. Mortes, dramas. O meu carro. A minha cerveja e os meus textos. Escrever. Divagar. E por fim, Rui e copos, e mais amigos, e miudas, conversas interessantes, piadas irrelevantes. Isto semanas atrás de semanas e mais semanas… Anos talvez… Quem sabe!"

quarta-feira, 30 de março de 2011

No outro tambem...

Lá estava ele debaixo do castanheiro. Mas desta vez as mãos cumprimentavam-se uma á outra, com os cotovelos pousado sobre os joelhos... Olhando um horizonte. Em t-shirt branca. Sentindo as primeiras brisas mais quentes. Uns jeans largos e velhos e umas botas gastas com o tempo... A barba já dava para colocar champô amaciador. Estava ali quieto, com os jeans a ficarem provavelmente cheios da terra ainda húmida. Ao longe já se pode ver o Rui a acenar. Ainda demorava seguramente uns cinco minutos a atravessar aqueles campos. Por isso é que ele nem se mexeu. Esboçou um sorriso de conforto e ficou a observar o Rui a caminhar desajeitado pelo meio dos campos. Caminho mais curto. Há sempre pessoas que não pensam assim tanto na comodidade, pensou ele. Era um sábado à tarde, e cheirava a ternura. Podia-se sentir. Ver. O vento não contava histórias do passado. O jovem centeio criava um novo presente. Ele já não pensava em coisa nenhuma. O caderno continuava a ser preenchido por parágrafos. Desda vez mais claros. Sem interesse nenhum. As ideias não tinham interesse nenhum e o Rui finalmente chega ofegante com cara de "Que raio estas tu sempre aqui a fazer afinal de contas?!"... O rui pensa essa pergunta, sem no entanto pensar efectivamente em pergunta-la... Visto que a resposta nunca surgiria por certo... Puxou um cigarro sentou-se ao lado dele. Noticias da vida social. Cá estão elas. Ele dirigiu o olhar para um horizonte qualquer e escuta o Rui. O castanheiro era o lugar dele. Dele e da sua alma. Dão-lhe vida e conforto. Nós somos o que o passado fez de nós. Ele sempre tem isso em mente. Sou aquilo que fui. Os momentos que fizeram girar a sua vida jamais irão com o vento... Poderão ser mais meigos e vadios. Mas presentes. O castanheiro conta todas as histórias que fez dele a sua vida. O rui pede a sua atenção. Chega de devaneios, pensa ele.

Pela noite dentro os pensamentos são mais rudes. Mais reais e assustadores. A sua alma consegue esquecer o provável e acreditar no impossível. Coisas estranhas as quais ele já se acostumou, e para fugir à condição fraca humana, senta-se na sua escrivaninha. Na sua frente tem uma janela e consegue-se ver a colina do seu castanheiro. O seu cão dá-lhe um toque no focinho como se quisesse dizer, "senão escreves, vamos roer o sofá"... Ele como percebendo o cão, olha para o whisky. Dá um trago. Dá dois tragos. Ele lembra aquela noite. A noite em que ele morreu. A morte não o assustava mais. Aprendeu de rebento, a lidar com a morte. Morte é como a vida. São dois estados de alma. Duas maneiras diferentes de se abordar este mundo. A morte dos estranhos, são mortes! A morte dos .... das pessoas que produzem qualquer tipo de sensação de gosto a amabilidade para connosco. Isso não é morte. É perda de algo que era nosso. Mais um pedaço da nossa alma que se desvanece. Vida é todo o resto. Todo o resto com alma. É uma selvajaria de maus interesses e egoísmos. Uma hipocrisia que nos destrói. Por isso é que o Pedro olhava aquela janela para nunca mais esquecer o que está errado e não faz sentido. Mas que o que existe, que exista e cresça! A raiva é assassina numa pobre alma. É maquiavélica quando a alma está podre. Então que Pedro dá um olhar rápido ao seu sofá. O cão.

sábado, 12 de março de 2011

O outro...

"Quem sabe o seu limite?! Até que ponto não roubam as coisas dos outros. Quão medíocres e surpreendentes conseguem ser. Quando a alma não rouba a obra. Nada pára. Equinócio nela é perfeito. Igualdade no balanço das que eram então suas virtudes. Quando a alma não supera a beleza. Não me venhas dizer que o corpo morre. Ele apenas não dura o suficiente para te aborreceres do tédio da condição humana. Uma partida interminável de xadrez!? Isso aborrecer-te-ia. Um orgasmo fácil. Uma tentação consumida. Uma alma nua. Uma obra roubada. Um sentimento já sentido. Uma hora mal tratada sem pensamento. Tudo continua às voltas e em frente, e a musica não é musica parada. Recusas-te a ver o tempo a passar. A morte a esquecer. Mãos nos bolsos, e imaginas a morte. Vês-te emaranhado nas próximas horas de pensamentos fúteis. De mãos nos bolsos. De barba grande e de alma roubada. Quem sabe o que sabe?! Tu não sabias, e a morte atravessou-te como uma lança que se crava e trespassa num gesto lento. Vagaroso. E ficas ali, horas. Dias a sentir. A consentir o roubo. O roubo da tua obra. Condição humana. O jogo da má sorte. Ergues a cabeça para trás e dás um esticão ao peito. Encaras o céu de olhos fechados e mãos nos bolsos. No meio da rua. Parado. A chuva escorre pelos teus traços do rosto. E consegue-se ouvir um saxofone. Calmo. A tocar musica de gato preto vadio. Aquele gato preto que caminha por entre as pessoas sem lhes tocar. Sem atravessar as ruas. Calmo. Abres os olhos e vês a chuva. Obliqua. Nuvens negras de contornos claros do Luar. Não há estrelas mas há Luar. Nem que seja escondido. Baixas a cabeça e fitas o teu caminho. A alma roubada. A morte. O tédio. A morte não leva uma só alma. Levou a dela, levou a tua, quem sabe quantas mais levou. E criou em ti uma nova alma. Não a compreendes. Não a queres e és levado com ela como numa enxurrada. Uma enxurrada cheia de coisas que não prestam. Cheia de almas que ninguém quer. Mas elas vão com a enxurrada. E tu só ouves os teus passos e a tua respiração. Quem sabe o que sente?! Tu escolhes-te não sentir essa alma mais. Se a morte a trocou por uma nova. Assim que seja. Ou assim seja, pois o que é, é o que é.
Tu não querias roubar obras. Nem sonhos. Agora ficas preso ao pensamento, burros são aqueles que confiam suas almas. Que confiam os seus medos. Burros daqueles que não são ignorantes. Agora sem nunca mais ver aquele rosto. Só dentro de ti. Como uma tentativa desesperada de não perder a alma dela. A alma não. Pensavas. Tu não querias roubar obras só porque achas que está certo. Não te querias entregar ao censo comum. E no entanto descias a estrada em direcção á enorme London Bridge. Querias ver o Thames uma vez mais. Tão iluminada que é. Que monte de monumento. Que almas morreram para dar sentido a tudo aquilo. Que almas lutaram para ficar na história da ambição. Sem medos. Só ambição de não ter medo. Nem tédios. Agora aquele monte de arquitectura e história só importam aos clic's e tudo mais que não passe de imagem. E ali estava o rio. Rio. Thames. A tua alma parou. Parou e só sentias as tuas emoções. O teu estado de ódio. Ódio por tudo que mexe sem sentido. Aquela ondulação artificial. Viras o teu rosto com brusquidão para as tuas mãos. Elas tremiam. A mão direita latejava de dor. Que dor física mais desproporcional ao momento. As mãos tremiam e a tua pulsação fazia com que sentisses cada ponto do teu corpo. Que tremor inquietante. A mão direita latejava. Inspiravas e depois expiravas. Com força. A mão direita carregada de dor. Cerraste o punho e bateste no peito. Respiravas. Tremias. Sentias. Aquele momento ficar-te-ia para sempre cravado naquela dor. Nos tremores que nunca mais te abandonaram. Uma alma destruída destruiu-te o corpo. Mesmo que haja o Luar. Mesmo que o rosto continue fino e delicado em ti. E os seus olhos se abram para ti. Em tua alma pobre. Imaginaste-a uma vez mais. Numa paisagem japonesa. A fitar-te com curiosidade. Parada. Tudo o que é efémero. Os que ficam na história são efémeros. Ela ficou na sua mente. Com os cabelos a ondularem tão graciosamente... Que ele respirava. E depois imaginou-a morta. Inchada de tanto corpo morto e matéria sem vida. A explodir de fluidos humanos. Um corpo morto. Sem alma nem obra. Obra roubada é obra desejada, é obra que não se consegue criar, é roubada. E alguém havia decidido simplesmente acabar com então toda criação deles… Ele e ela. Ela e ele que fosse. Dois mundos que se movimentavam para a destruição. Como qualquer outro mundo. Que morre sem história ou obra! "

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Um dia e depois o outro!

Era um daqueles dias em que o Sol é mesmo amarelo e o céu é mesmo azul, a verdade parecia ainda mais clara e evidente. E não se sentia o seu habitual sabor amargo que a verdade sempre atrai consigo. Acabada de chegar à praça, estacionou o carro num local proibido. O ar era fresco. A praça era pequena mas muito agradável, estava cheia de meia gente. O trânsito não é nenhum nem algum, como naquelas brincadeiras com os carrinhos de infância, colocados a preceito só para parecer bem. Estava no meio de várias escolhas possíveis para se tomar um café relaxadamente e até se fazer acompanhar de uma delícia qualquer, que tão típico é naquele povoado. Observando os dois guardas que conversavam distraidamente do outro lado da rua, escolheu o café que já tinha passado os olhos, mesmo ao lado do seu carro, aquele pequeno cubículo espremido entre duas lojas. Era um daqueles cafés para homens. Que se servem bebidas de homem. Entrando percebeu que não se enganará nada. Era todo revestido de madeira com um tecto relativamente baixo. Ouvia-se passos lentos e preguiçosos na assoalhada de cima. O ranger prolongava-se de tal maneira, que a pessoa em questão devia de levar uns cinco minutos a dar dois passos. O café tinha quatro mesas quase umas em cima de outras, e um balcão minúsculo de canto. Dois homens fitaram-na enquanto entrava. Dois clientes de sala. O dono, com a pele a desvanecer-se tinha uma voz de George Clooney mas não sorria. O balcão logo atrás dele estava carregado de bebidas másculas. Favaios, bagaços, whiskys e uns quantos baralhos que indicavam as horas, que aquele café provavelmente fecharia! Um pequeno espaço no balcão era dedicado a uns panados, rissóis e uns bolos secos que provavelmente vinham de um mini mercado qualquer. Tinha uma televisão panorâmica logo acima da porta, e bem maior que a porta. Ideal para se assistir a grandes jogos, acompanhados de minis, tremoços e muitas discussões. Em suma, aquilo era uma pequena Macholândia. Como a fome era de facto uma realidade, decidiu pedir um daqueles bolos de arroz ressequidos. Não sabia a arroz nem a bolo. Era doce. E tudo que é doce lembra lhe doçaria. E coisas que fazem mal. Mas pelo menos não era velho, nem estava estragado. O assunto na tasca era sobre os empregados do município que muito lentamente faziam a poda às árvores, estas que nasciam no meio do cimento da praça em pequenos orifícios que pareciam sufocá-las, coitadas. E os preguiçosos encostavam as escadas às jovens árvores ao ponto de as vergarem. Estava tudo no café a rogar pragas para que um deles benzesse aquele chão.
Sentou-se na praça, num banco torto a fumar um cigarro sem pensar em nada. Observando os vagarosos trabalhadores do estado. Havia lá um com aparência de Vin Diesel que tinha imenso cuidado com árvores, nem tão pouco as tocava com a escada, único defeito era mesmo fumar um cigarro cada vez que cortasse mais que cinco galhos seguidos, e ficava ali, contemplando a sua obra de arte como se aquilo fosse o trabalho mais fascinante do mundo! Mas tudo estava ali equilibrado. As pessoas que vagueavam na praça eram velhos ou incapacitados, ou aquela malta que pouco ou nada faz na vida. Tudo estava equilibrado. Era possível ouvir o mesmo tom em todas as vozes. A mesma claridade em cada alma. Não havia pressa. Nem demasiados sorrisos, nem dramas. Equilíbrio de uma obra que tem sido construída há séculos... A sociedade. Uma harmoniosa sociedade. Ela levantou-se e atirou o cigarro contra o chão. Tirou o carro do lugar proibido e sorriu por enganar uma vez mais o sistema, olhou pelo retrovisor enquanto a praça se extinguia muito lentamente... Tudo está feito e tudo é o que é! E tudo continuará a ser o que é e o que foi... Nascendo numa sociedade concebida há centenas de anos, será que ainda existem pessoas que acreditam numa mudança?! Até podem acreditar.... Como se dois mais dois fosse de facto igual a cinco!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

"Ninguém sabia como ela havia morrido. O seu corpo flutuava silenciosamente sobre o Thames. Aquele branco pálido da sua pele reluzia. E as coisas continuavam normais. Os carros circulavam à esquerda, os autocarros continuavam cheios de loucura e tu ali morta e abandonada. O céu estava escuro. Limpo, mas escuro. Negro. As coisas continuavam a fazer sentido para os outros. Como não quebrar agora. Como não mergulhar agora no Thames e deixar-me levar... Eles depressa te tiraram, subtilmente. E fui te identificar. Pálida e sem expressão. Rosto sem vida. Sem a tua alma, já não eras mais tu. Virei costas e juntei-me aos pensamentos. Encolhi-me e fugi. Tudo me espezinhava a alma e ardia. Os fastfoods colados uns aos outros, e os prédios gastos e inúteis. O supérfluo carregando às costas a inutilidade. Aquela cidade. Quem te fez isso... Quem te fez isso sei que vou encontrar, e estou preparado para a expressão que vou encontrar! Vou ver uma enorme expressão de futilidade à minha frente. Igual a todas as coisas que não fazem sentido nenhum, mas existem pessoas suficientemente estúpidas para desejá-las. Sentei-me no meio da Russell Square. Pequena mas tão confortável. Ninguém me olha. Ninguém passa. Os esquilos, esse não me incomodam, porque são reais. E árvores são reais, assim como vento gelado a fazer-me lembrar porque deixo crescer a barba. E aquela relva com um toque tão humano e artificial levam-me novamente aos monstros. Levanto a cabeça e observo a esplendorosa arquitectura gótica de Londres encoberta pela penumbra da noite. Nunca mais te vejo. Nem te sinto. Os teus prédios ainda ali estão e a tua faculdade à minha frente. E as pessoas continuam a sorrir e a caminhar em frente. Vou ficar aqui hoje. A inspirar e a expirar... Inspirar e expirar..."

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"A expressão da Japonesa! O rui fita-me sempre sem perceber nada, tambem não precisa. E guarda as suas perguntas. Estamos sempre carregados de dúvidas, é uma realidade, mas enquanto houver amigos e palavras para se gastar, os momentos bons existem à mesma, e não me preocupo com nada. A não ser com aquela expressão japonêsa. Os meus pensamentos perdem-se com o ondular do cabelo ao vento uma vez mais. Como se estivesse com a câmara outra vez entre mãos. As mãos que tremiam enquanto eu fitava aquela expressão ténue. Quase inexistente. O Rui depressa estalava os dedos e continuava a conversa. A presença dele aqui comigo traz-me mais calor do que o fogo ateado na lareira há dois dias. Mas quando ele vai embora, ainda me sinto melhor. Pois a sua cúmplicidade traz-me sossego à alma."
"Ele continua com aquele ar abatido. Mal tocou no whisky. Ainda usa frases vazias de conteúdo com os olhos penetrados nos objectos mais distantes. Mas mesmo assim não sei como este gajo consegue. Barba enorme e cara toda desconcertada não lhe retira charme nenhum. O cabelo todo atrapalhado e as suas camisas dobro do tamanho por engomar, demonstra o seu estilo inconfudivel. Bolas. Mesmo arruinado consegue ter o seu ego intocável. Sei não, se estivesse no lugar dele. Admiro-te pois. A ti e aos teus gostos excêntricos. Estar aqui significa perder a noção total dos minutos. E mais importante ainda... Perder a noção total da realidade!"