quarta-feira, 6 de abril de 2011

Ilusao

"Vejo-o como se tudo perdesse interesse. Recordo-o como se estivesse mesmo lá. Meus tempos. Quando as guitarras eram calmas e minuciosamente bem tocadas.... Ouvindo-se umas poucas notas sossegadamente bem tocadas. Os pensamentos mesmo que renegados, insistem em voltar, e eu deixo-os entrar. Fluir em mim. Era tudo naquela casa negra. Naqueles terrenos cheios de diferentes verdes. Os terrenos da família Japonesa. Eu era sempre recebido a cavalo. Eu ia de cavalo. E atravessava contigo aqueles campos aos trambolhões em cima do coitado do animal, de tão desajeitado que sou. E que viagem era! Enorme, mas lá o meu traseiro se habituava à dor, tinha de manter a postura á tua beira. Jamais fraquejar! Jovem e burro. Mas sempre lá estava a aldeola. Num vale. Cheio de barracas de madeira e casas de madeira. E cestos de madeira. Brinquedos de madeira. Ferramentas de madeira. Enfim.... Tudo muito artesanal. Menos a alma. Ui, a alma deles. Era como se eu passasse de um mundo de zombies para um mundo humano. Não que achasse que conseguisse ali sobreviver muito tempo, mas o que é certo…. A alma deles foi algo que trouxe e sempre estará comigo. Saya. Eu era jornalista e jovem, e burro. Não via as coisas mais simples baterem de frente com os meus olhos.


Ali chegava apenas um sinal fraco para a televisão e redes telefónicas! Bah, segundo eles, nunca foi necessário! Então lá tinha eu que tratar incansavelmente do meu mundo electrónico antes de me refugiar naquela ilha japonesa. Manter tudo actualizado e até tentava soltar umas previsões ridículas ao meu editor e ao meu director da revista, mas só assim eles e eu, conseguíamos superar o meu apagão dos dias seguintes. Eram sempre muitos dias de apagão. E lá ficava aqueles dias contigo e com eles sem hesitar. Aqueles dias que lá ficava contigo e com os teus. Jovem e burro. Que dias bons eram esses. Valores humanos. Confiança e devoção. Obediência e calma. Integridade e honra. Lá aprendíamos a cuidar das almas... Eu passava os dias a jogar futebol com os miúdos e outros jogos estranhos que lá eles me obrigavam a aprender. Ela passava os dias a tratar dos animais e dos miúdos. A mãe e o pai trabalhavam nos campos, e os tios e avós e sei lá quem mais. E era tudo uma enorme repartição de tarefas muito bem concebida naquela pequena vila com apenas duas famílias os Katsymoro, a família de Saya e os Sukutayo...


Mais fantástico ainda que tudo, eram os teus cabelos. Que te desciam pelo rosto. E tu deixavas. Longos. Que longos eram. Nos inícios sentava-me à tua beira e eu ficava a ver a tua boca a soltar palavras. Não sei o que dizias. Mas adorava ver o movimento lento dos teus lábios. A textura da tua pele. Tua pele era... Era a tua beleza tão incomum e tão tua! Assim só podia ser concebida muito longe das nossas sociedades modernas enraizadas de maus vícios e sobrevalorização das coisas... Os teus olhos mostravam a verdade que navegava na tua alma. Não olhavas à confiança, mas olhavas me porque querias confiar. E passei assim os melhores dias de sempre. Com um espectro feminino dos mais perfeitos que um estúpido rapaz de 23 anos poderia ver em tão curta vida. Á noite, no teu alpendre tomávamos um chá de umas ervas manhosas. Eu fala-te das coisas absurdas da sociedade moderna, e tu lembravas me sempre que a televisão da sala funcionava muito bem. Mas sempre a surpreendia com qualquer disparate... Fumava sempre dois cigarros, enquanto observava o queixo dela a recostar-se no peito... E aqueles olhos. Os teus olhos. Tão rasgados. Puros. Negros da cor do carvão. Como o teu cabelo. Negra de pele branca.


Meus amigos, dois conhecidos, três colegas e um familiar perguntavam-me uma vez por outra o que andava ali a fazer tanto tempo sem dar sinal de vida. Deixavam-me um mail, que só lia quando íamos à cidade aos fins de semanas, uma vez por mês. Que nem há uns 100 anos atrás. Era agradável. Mas como precisávamos de quase um dia inteiro para lá chegar e ainda tínhamos de ficar alojados em qualquer sítio que estivesse disponível à calha no centro da ilha de Shikoku, era uma viagem cansativa e dispendiosa.


Mas enquanto eles lá vendiam as suas coisas que brotam da terra de nomes muito exóticos, eu bloqueava-me no quarto enfiado no laptop o dia quase inteiro nas actualizações necessárias ao mundo exterior. Não porque precisasse de o fazer, mas porque o tinha. Dizia que estava vivo ao mundo finalmente. E enviava alguns relatos sobre a minha experiência. Mas não podia falar de ti… Nem… então o que lhes dizia?! Qual era o sentido daquela reportagem?! Dediquei-me a um documentário. Sobre os valores humanos quase extintos e a dependência que a sociedade nos causa, como que um vírus imune. E mentia ao meu director. Como quem sabe mentir profissionalmente. Mas eu só queria falar do som do vento quando chocava no teu rosto. Dos teus vestidos brancos, que quando ao Sol, conseguia ver as linhas perfeitas do teu corpo. Queria falar do calor dos abraços dos miúdos que me esmagavam o pescoço cada vez que um se deitava. Quem não sente. Não vive. Então para quê divulgar mais uma história banal!? Como explicar aquele calor terno se nunca vai perdurar!? Eu sabia que meses depois estaria tudo no mesmo lugar. O meu quarto branco. O meu café cheio. O meu pão seco. A minha pasta e o laptop. O meu carro. A minha estrada. As habituais escadas. O habitual escritório. Ouvir o meu nome trinta vezes por dia. Depois as habituais histórias sem intensidade. Mais um café. Umas piadas com as colegas atraentes e um cigarro. Trabalho desnecessário. Coscuvilhices. Mortes, dramas. O meu carro. A minha cerveja e os meus textos. Escrever. Divagar. E por fim, Rui e copos, e mais amigos, e miudas, conversas interessantes, piadas irrelevantes. Isto semanas atrás de semanas e mais semanas… Anos talvez… Quem sabe!"

quarta-feira, 30 de março de 2011

No outro tambem...

Lá estava ele debaixo do castanheiro. Mas desta vez as mãos cumprimentavam-se uma á outra, com os cotovelos pousado sobre os joelhos... Olhando um horizonte. Em t-shirt branca. Sentindo as primeiras brisas mais quentes. Uns jeans largos e velhos e umas botas gastas com o tempo... A barba já dava para colocar champô amaciador. Estava ali quieto, com os jeans a ficarem provavelmente cheios da terra ainda húmida. Ao longe já se pode ver o Rui a acenar. Ainda demorava seguramente uns cinco minutos a atravessar aqueles campos. Por isso é que ele nem se mexeu. Esboçou um sorriso de conforto e ficou a observar o Rui a caminhar desajeitado pelo meio dos campos. Caminho mais curto. Há sempre pessoas que não pensam assim tanto na comodidade, pensou ele. Era um sábado à tarde, e cheirava a ternura. Podia-se sentir. Ver. O vento não contava histórias do passado. O jovem centeio criava um novo presente. Ele já não pensava em coisa nenhuma. O caderno continuava a ser preenchido por parágrafos. Desda vez mais claros. Sem interesse nenhum. As ideias não tinham interesse nenhum e o Rui finalmente chega ofegante com cara de "Que raio estas tu sempre aqui a fazer afinal de contas?!"... O rui pensa essa pergunta, sem no entanto pensar efectivamente em pergunta-la... Visto que a resposta nunca surgiria por certo... Puxou um cigarro sentou-se ao lado dele. Noticias da vida social. Cá estão elas. Ele dirigiu o olhar para um horizonte qualquer e escuta o Rui. O castanheiro era o lugar dele. Dele e da sua alma. Dão-lhe vida e conforto. Nós somos o que o passado fez de nós. Ele sempre tem isso em mente. Sou aquilo que fui. Os momentos que fizeram girar a sua vida jamais irão com o vento... Poderão ser mais meigos e vadios. Mas presentes. O castanheiro conta todas as histórias que fez dele a sua vida. O rui pede a sua atenção. Chega de devaneios, pensa ele.

Pela noite dentro os pensamentos são mais rudes. Mais reais e assustadores. A sua alma consegue esquecer o provável e acreditar no impossível. Coisas estranhas as quais ele já se acostumou, e para fugir à condição fraca humana, senta-se na sua escrivaninha. Na sua frente tem uma janela e consegue-se ver a colina do seu castanheiro. O seu cão dá-lhe um toque no focinho como se quisesse dizer, "senão escreves, vamos roer o sofá"... Ele como percebendo o cão, olha para o whisky. Dá um trago. Dá dois tragos. Ele lembra aquela noite. A noite em que ele morreu. A morte não o assustava mais. Aprendeu de rebento, a lidar com a morte. Morte é como a vida. São dois estados de alma. Duas maneiras diferentes de se abordar este mundo. A morte dos estranhos, são mortes! A morte dos .... das pessoas que produzem qualquer tipo de sensação de gosto a amabilidade para connosco. Isso não é morte. É perda de algo que era nosso. Mais um pedaço da nossa alma que se desvanece. Vida é todo o resto. Todo o resto com alma. É uma selvajaria de maus interesses e egoísmos. Uma hipocrisia que nos destrói. Por isso é que o Pedro olhava aquela janela para nunca mais esquecer o que está errado e não faz sentido. Mas que o que existe, que exista e cresça! A raiva é assassina numa pobre alma. É maquiavélica quando a alma está podre. Então que Pedro dá um olhar rápido ao seu sofá. O cão.

sábado, 12 de março de 2011

O outro...

"Quem sabe o seu limite?! Até que ponto não roubam as coisas dos outros. Quão medíocres e surpreendentes conseguem ser. Quando a alma não rouba a obra. Nada pára. Equinócio nela é perfeito. Igualdade no balanço das que eram então suas virtudes. Quando a alma não supera a beleza. Não me venhas dizer que o corpo morre. Ele apenas não dura o suficiente para te aborreceres do tédio da condição humana. Uma partida interminável de xadrez!? Isso aborrecer-te-ia. Um orgasmo fácil. Uma tentação consumida. Uma alma nua. Uma obra roubada. Um sentimento já sentido. Uma hora mal tratada sem pensamento. Tudo continua às voltas e em frente, e a musica não é musica parada. Recusas-te a ver o tempo a passar. A morte a esquecer. Mãos nos bolsos, e imaginas a morte. Vês-te emaranhado nas próximas horas de pensamentos fúteis. De mãos nos bolsos. De barba grande e de alma roubada. Quem sabe o que sabe?! Tu não sabias, e a morte atravessou-te como uma lança que se crava e trespassa num gesto lento. Vagaroso. E ficas ali, horas. Dias a sentir. A consentir o roubo. O roubo da tua obra. Condição humana. O jogo da má sorte. Ergues a cabeça para trás e dás um esticão ao peito. Encaras o céu de olhos fechados e mãos nos bolsos. No meio da rua. Parado. A chuva escorre pelos teus traços do rosto. E consegue-se ouvir um saxofone. Calmo. A tocar musica de gato preto vadio. Aquele gato preto que caminha por entre as pessoas sem lhes tocar. Sem atravessar as ruas. Calmo. Abres os olhos e vês a chuva. Obliqua. Nuvens negras de contornos claros do Luar. Não há estrelas mas há Luar. Nem que seja escondido. Baixas a cabeça e fitas o teu caminho. A alma roubada. A morte. O tédio. A morte não leva uma só alma. Levou a dela, levou a tua, quem sabe quantas mais levou. E criou em ti uma nova alma. Não a compreendes. Não a queres e és levado com ela como numa enxurrada. Uma enxurrada cheia de coisas que não prestam. Cheia de almas que ninguém quer. Mas elas vão com a enxurrada. E tu só ouves os teus passos e a tua respiração. Quem sabe o que sente?! Tu escolhes-te não sentir essa alma mais. Se a morte a trocou por uma nova. Assim que seja. Ou assim seja, pois o que é, é o que é.
Tu não querias roubar obras. Nem sonhos. Agora ficas preso ao pensamento, burros são aqueles que confiam suas almas. Que confiam os seus medos. Burros daqueles que não são ignorantes. Agora sem nunca mais ver aquele rosto. Só dentro de ti. Como uma tentativa desesperada de não perder a alma dela. A alma não. Pensavas. Tu não querias roubar obras só porque achas que está certo. Não te querias entregar ao censo comum. E no entanto descias a estrada em direcção á enorme London Bridge. Querias ver o Thames uma vez mais. Tão iluminada que é. Que monte de monumento. Que almas morreram para dar sentido a tudo aquilo. Que almas lutaram para ficar na história da ambição. Sem medos. Só ambição de não ter medo. Nem tédios. Agora aquele monte de arquitectura e história só importam aos clic's e tudo mais que não passe de imagem. E ali estava o rio. Rio. Thames. A tua alma parou. Parou e só sentias as tuas emoções. O teu estado de ódio. Ódio por tudo que mexe sem sentido. Aquela ondulação artificial. Viras o teu rosto com brusquidão para as tuas mãos. Elas tremiam. A mão direita latejava de dor. Que dor física mais desproporcional ao momento. As mãos tremiam e a tua pulsação fazia com que sentisses cada ponto do teu corpo. Que tremor inquietante. A mão direita latejava. Inspiravas e depois expiravas. Com força. A mão direita carregada de dor. Cerraste o punho e bateste no peito. Respiravas. Tremias. Sentias. Aquele momento ficar-te-ia para sempre cravado naquela dor. Nos tremores que nunca mais te abandonaram. Uma alma destruída destruiu-te o corpo. Mesmo que haja o Luar. Mesmo que o rosto continue fino e delicado em ti. E os seus olhos se abram para ti. Em tua alma pobre. Imaginaste-a uma vez mais. Numa paisagem japonesa. A fitar-te com curiosidade. Parada. Tudo o que é efémero. Os que ficam na história são efémeros. Ela ficou na sua mente. Com os cabelos a ondularem tão graciosamente... Que ele respirava. E depois imaginou-a morta. Inchada de tanto corpo morto e matéria sem vida. A explodir de fluidos humanos. Um corpo morto. Sem alma nem obra. Obra roubada é obra desejada, é obra que não se consegue criar, é roubada. E alguém havia decidido simplesmente acabar com então toda criação deles… Ele e ela. Ela e ele que fosse. Dois mundos que se movimentavam para a destruição. Como qualquer outro mundo. Que morre sem história ou obra! "

quarta-feira, 2 de fevereiro de 2011

Um dia e depois o outro!

Era um daqueles dias em que o Sol é mesmo amarelo e o céu é mesmo azul, a verdade parecia ainda mais clara e evidente. E não se sentia o seu habitual sabor amargo que a verdade sempre atrai consigo. Acabada de chegar à praça, estacionou o carro num local proibido. O ar era fresco. A praça era pequena mas muito agradável, estava cheia de meia gente. O trânsito não é nenhum nem algum, como naquelas brincadeiras com os carrinhos de infância, colocados a preceito só para parecer bem. Estava no meio de várias escolhas possíveis para se tomar um café relaxadamente e até se fazer acompanhar de uma delícia qualquer, que tão típico é naquele povoado. Observando os dois guardas que conversavam distraidamente do outro lado da rua, escolheu o café que já tinha passado os olhos, mesmo ao lado do seu carro, aquele pequeno cubículo espremido entre duas lojas. Era um daqueles cafés para homens. Que se servem bebidas de homem. Entrando percebeu que não se enganará nada. Era todo revestido de madeira com um tecto relativamente baixo. Ouvia-se passos lentos e preguiçosos na assoalhada de cima. O ranger prolongava-se de tal maneira, que a pessoa em questão devia de levar uns cinco minutos a dar dois passos. O café tinha quatro mesas quase umas em cima de outras, e um balcão minúsculo de canto. Dois homens fitaram-na enquanto entrava. Dois clientes de sala. O dono, com a pele a desvanecer-se tinha uma voz de George Clooney mas não sorria. O balcão logo atrás dele estava carregado de bebidas másculas. Favaios, bagaços, whiskys e uns quantos baralhos que indicavam as horas, que aquele café provavelmente fecharia! Um pequeno espaço no balcão era dedicado a uns panados, rissóis e uns bolos secos que provavelmente vinham de um mini mercado qualquer. Tinha uma televisão panorâmica logo acima da porta, e bem maior que a porta. Ideal para se assistir a grandes jogos, acompanhados de minis, tremoços e muitas discussões. Em suma, aquilo era uma pequena Macholândia. Como a fome era de facto uma realidade, decidiu pedir um daqueles bolos de arroz ressequidos. Não sabia a arroz nem a bolo. Era doce. E tudo que é doce lembra lhe doçaria. E coisas que fazem mal. Mas pelo menos não era velho, nem estava estragado. O assunto na tasca era sobre os empregados do município que muito lentamente faziam a poda às árvores, estas que nasciam no meio do cimento da praça em pequenos orifícios que pareciam sufocá-las, coitadas. E os preguiçosos encostavam as escadas às jovens árvores ao ponto de as vergarem. Estava tudo no café a rogar pragas para que um deles benzesse aquele chão.
Sentou-se na praça, num banco torto a fumar um cigarro sem pensar em nada. Observando os vagarosos trabalhadores do estado. Havia lá um com aparência de Vin Diesel que tinha imenso cuidado com árvores, nem tão pouco as tocava com a escada, único defeito era mesmo fumar um cigarro cada vez que cortasse mais que cinco galhos seguidos, e ficava ali, contemplando a sua obra de arte como se aquilo fosse o trabalho mais fascinante do mundo! Mas tudo estava ali equilibrado. As pessoas que vagueavam na praça eram velhos ou incapacitados, ou aquela malta que pouco ou nada faz na vida. Tudo estava equilibrado. Era possível ouvir o mesmo tom em todas as vozes. A mesma claridade em cada alma. Não havia pressa. Nem demasiados sorrisos, nem dramas. Equilíbrio de uma obra que tem sido construída há séculos... A sociedade. Uma harmoniosa sociedade. Ela levantou-se e atirou o cigarro contra o chão. Tirou o carro do lugar proibido e sorriu por enganar uma vez mais o sistema, olhou pelo retrovisor enquanto a praça se extinguia muito lentamente... Tudo está feito e tudo é o que é! E tudo continuará a ser o que é e o que foi... Nascendo numa sociedade concebida há centenas de anos, será que ainda existem pessoas que acreditam numa mudança?! Até podem acreditar.... Como se dois mais dois fosse de facto igual a cinco!

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

"Ninguém sabia como ela havia morrido. O seu corpo flutuava silenciosamente sobre o Thames. Aquele branco pálido da sua pele reluzia. E as coisas continuavam normais. Os carros circulavam à esquerda, os autocarros continuavam cheios de loucura e tu ali morta e abandonada. O céu estava escuro. Limpo, mas escuro. Negro. As coisas continuavam a fazer sentido para os outros. Como não quebrar agora. Como não mergulhar agora no Thames e deixar-me levar... Eles depressa te tiraram, subtilmente. E fui te identificar. Pálida e sem expressão. Rosto sem vida. Sem a tua alma, já não eras mais tu. Virei costas e juntei-me aos pensamentos. Encolhi-me e fugi. Tudo me espezinhava a alma e ardia. Os fastfoods colados uns aos outros, e os prédios gastos e inúteis. O supérfluo carregando às costas a inutilidade. Aquela cidade. Quem te fez isso... Quem te fez isso sei que vou encontrar, e estou preparado para a expressão que vou encontrar! Vou ver uma enorme expressão de futilidade à minha frente. Igual a todas as coisas que não fazem sentido nenhum, mas existem pessoas suficientemente estúpidas para desejá-las. Sentei-me no meio da Russell Square. Pequena mas tão confortável. Ninguém me olha. Ninguém passa. Os esquilos, esse não me incomodam, porque são reais. E árvores são reais, assim como vento gelado a fazer-me lembrar porque deixo crescer a barba. E aquela relva com um toque tão humano e artificial levam-me novamente aos monstros. Levanto a cabeça e observo a esplendorosa arquitectura gótica de Londres encoberta pela penumbra da noite. Nunca mais te vejo. Nem te sinto. Os teus prédios ainda ali estão e a tua faculdade à minha frente. E as pessoas continuam a sorrir e a caminhar em frente. Vou ficar aqui hoje. A inspirar e a expirar... Inspirar e expirar..."

segunda-feira, 3 de janeiro de 2011

"A expressão da Japonesa! O rui fita-me sempre sem perceber nada, tambem não precisa. E guarda as suas perguntas. Estamos sempre carregados de dúvidas, é uma realidade, mas enquanto houver amigos e palavras para se gastar, os momentos bons existem à mesma, e não me preocupo com nada. A não ser com aquela expressão japonêsa. Os meus pensamentos perdem-se com o ondular do cabelo ao vento uma vez mais. Como se estivesse com a câmara outra vez entre mãos. As mãos que tremiam enquanto eu fitava aquela expressão ténue. Quase inexistente. O Rui depressa estalava os dedos e continuava a conversa. A presença dele aqui comigo traz-me mais calor do que o fogo ateado na lareira há dois dias. Mas quando ele vai embora, ainda me sinto melhor. Pois a sua cúmplicidade traz-me sossego à alma."
"Ele continua com aquele ar abatido. Mal tocou no whisky. Ainda usa frases vazias de conteúdo com os olhos penetrados nos objectos mais distantes. Mas mesmo assim não sei como este gajo consegue. Barba enorme e cara toda desconcertada não lhe retira charme nenhum. O cabelo todo atrapalhado e as suas camisas dobro do tamanho por engomar, demonstra o seu estilo inconfudivel. Bolas. Mesmo arruinado consegue ter o seu ego intocável. Sei não, se estivesse no lugar dele. Admiro-te pois. A ti e aos teus gostos excêntricos. Estar aqui significa perder a noção total dos minutos. E mais importante ainda... Perder a noção total da realidade!"

terça-feira, 28 de dezembro de 2010

Ele sempre soube que os prados verdes pelo meio da noite eram escuros. Negros. Distantes e sem contar histórias. Por isso ele tinha que contar a dele. Ele não queria falar do mundo e de como mal ele funciona. Não queria pensar no sistema e das más politicas que o regulam... Apenas um caderno e uns desenhos rasgurados. E o vento corria sobre ele. Sentia se confortavel. Quente.
No dia seguinte acordou na sua cama. Os telefonemas ouviam-se muito longe depressa lhes respondeu a todos. Com respostas similares. O cafe era tardio, assim como a sua pressa de sair de casa. Não demorou, e estava na rua. Lendo o jornal, relembrado o sistema, e a sua vontade de aderir ao fictio para que tudo seja just perfect.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

E assim foi. O wisky sempre acaricia a garganta e o Rui não foi falar de telefones ou se o homem os respondia! Nem tão pouco veio falar dos seus...! O homem eu fitou-o sempre com aquela expressão desnuda de medo. Rui nao se cansava de repetir que o quadro lhe lembrava uma lap dance que foram ver, e que wisky sem pistacho não é a mesma coisa. Quando ele foi embora a sua sala estava mais quente. Pegou no caderno acastanhado e seguiu viagem até ao castanheiro. Sem noção de horas ou temperaturas, sai pelas traseiras. Os seus menbros depressa entraram em tremores estranhos e descompassados. Estava frio por certo, e as estrelas mais distantes contavam histórias. Histórias sobre aqueles mundos que existem e que ignoramos a sua total possibilidade de existência! O preto ternurento daquele céu torna a vida mais harmoniosa. Cheio de buracos negros carregados de descoberta! E as estrelas cadentes que sempre se concretizam...

segunda-feira, 20 de dezembro de 2010

Conto das pessoas...


Passando a mão sobre as ervas altas e vadias do seu quintal, o homem sente-se só. Lá longe um enorme castanheiro depenado serve de ponto expiatório. É para onde se dirige. No seu caderno castanho correm mais uns desenhos extravagantes que ninguem gosta. Mas ele continua a imaginá-los. Transcreve-os com mais pureza ainda. Ele não quer contar histórias, nem poemas, nem sentimentos, nem sonhos. Ele quer sentir a terra humida e amolecida enquanto se senta. Fechar o caderno e não fazer nada. Sentir frio e desconforto. Mas não sente. O ardor dentro do peito aquece os dias mais gelados. O bater incessante daquele orgão fá-lo respirar com impaciência. E os desenhos tornam-se ansiosos. Um misto de loucura com ternura compõem agora as suas novas histórias. Então prefere levantar-se e pentear as ervas longas e amarelas. Sentir aquela sensação ternurenta na palma da mão. A palma da sua mão.

Esquece a tranquilidade do seu mundo e entra outra vez na realidade. Desce os caminhos lamacentos e entre em casa pelas traseiras. E ouve-se os seus passos solitários rangendo na madeira. As pessoas ligam e fartam se de ligar. Sobre coisas desinteressantes. Ele atende. Fala em tom desinteressante, e desinteressadamente desliga o telemovel de vez. O telefone da sala começa a tocar. A sua sala. Decorou-a sozinho. Para si mesmo. Solta um sorriso sempre que olha para aquele quadro maluco que numa noite de copos nasceu. As fotografias que tirou a bambus no Japão, e aquela miúda de lá. Que miúda aquela! Os seus contornos eram requintados que nem a folha de bambu. A folha de bambu que tão delicada é. O seu rosto prendia uma expressão que ele não conseguiu nunca sugar com a sua máquina. A leveza do seu cabelo ao vento, e a forma de como ele muito lentamente acabava por poisar no rosto. Mas aquela foto que estava ali ao lado da janela, tinha uma expressão que ele roubou antes de voltar a Portugal. Mas ele nunca percebeu aquela expressão. Por isso a colocou, ali. Eternamente exposta, do lado esquerdo da janela. Janela esta, que está sempre aberta, com a cortina de linho branca. Cortina que sempre acompanha o vento muito suavemente, produzindo movimentos diferentes. Que nem o cabelo da japonesa! Aquela japonesa ao lado da janela de beleza pura, com a expressão contida. Os estalos da lareira que está acesa há já dois dias capta-lhe a atenção. Preenche-se de conforto e decide ligar ao Rui. Lá para baixo na cave tem um whisky que seu pai outrora lhe ofereceu num Natal igual aos outros. Não que seja especial. Mas é bom na boca certa. O rui.

segunda-feira, 13 de dezembro de 2010

Será que tens medo da velhice ou da solidão!?
Será que tens medo de ganhar ou de perder?!
Será que tens medo de foder ou de amar?!
Será que tens medo de te vingar ou de menosprezar!?
Será que tens medo de abandonar ou de te acovardar?!
Será que tens medo da luta ou do esforço?!
Será que tens medo de ter amigos ou de ter um amigo!?
Será que tens medo de trair ou de te libertar?!
Será que tens medo de ouvir ou de falar?!
(...)
Muitas perguntas me fizes-te ontem. Não tinha como te responder. Não sabia a resposta. Para nenhuma. O inconsciente toma partido da alma. E as respostas não surgem. Só as acções. Só os momentos. E voltavas a fazer essas perguntas doidas. Era como se me perguntasses porque sou Portista. Porque prefiro uma ouvir indie do que pop. Não te sei responder. Só sei que é assim. A resposta talvez esteja desde sempre no medo. No nosso medo. Da nossa vergonha. Da nossa culpa. Da sinceridade que nos engole, como se fosse mais facil mentir. Manipular e enganar. A verdade é inconsciente. É a alma. E ser-se português é ter-se orgulho. Orgulho só por sê-lo! E onde está esse orgulho quando temos medo... e erramos?!
(...)
Permutação. Monstruosidades inerentes em teu ser. Quão dificeis poderão ser as tuas respostas para que as mantenhas sempre ocultas. Quem teme a verdade teme a vida. Quem teme a vida, segue a vida normalmente. Sem pensar. Sem se estragar. Sem conhecer. Sem lutar. Sem inovar. Sem merecer. Sem perder nem ganhar.

quinta-feira, 9 de dezembro de 2010

Escuto!
Tá calado!
Não me venhas com confusões!
Eu sei o que vi!
Ah não viste não!
Há coisas que não se veêm! Procura bem!
Oh, eu não vi...
Tu nunca queres ver!
Ler e escutar!
Sentir, abandonar!
Escuta...
O som do piano vem de lá de dentro...
Uma sala de jantar clássica.
Copos gigantescos e mesa arredondada!
Grandes velas e guardanapos assombravam a mesa.
Grotescos candeeiros pendiam do tecto.
O que vês?! Vês cortesia e um livro de regras,
as quais, alguem roubou! E enterrou!!
Vês o gotico amedrontado pelo clássico.
Vês o alternativo aterrorizado por eles...
Eles! Eles que roubam...! Pilham! Mentem!
Manipuladores do senso comum.

segunda-feira, 29 de novembro de 2010

Follow the Map

Nunca me preocupei em andar perdida... Gosto de me perder e percorrer aqueles caminhos que pensava que nunca existiriam! As respostas ninguem as quer ver. Fazem me perguntas às quais não querem saber a resposta. Percorro estes caminhos com os meus olhos e os meus pés. Sinto os pés cada vez mais frios e solitários. Vejo imagens que não vou partilhar com ninguem. Sinto a temperatura a percorrer-me as veias de um tempo que ninguém o sente. Oiço os murmúrios dos mortos que só confiam em mim. Sinto o tempo perdido. As horas já não contam mais os minutos porque nós destruimos tudo. Tornamos tudo tão insignificante pós morte. Daí a nossa raça destruidora. A natureza não se suicida. Regenera-se e reproduze-se. Nós suicidamo nos lentamente... Todos os dias... E defendemos valores que nunca existiram, e contamos histórias para enganar a verdade... E mais histórias... E inventamos contos... Mitos... Fantasiamos a eternidade pois ela nunca será nossa... Nem a culpa!

segunda-feira, 22 de novembro de 2010

ROTINA

Claro que a rotina me chateia! Tento sempre expulsa-la da minha vida. Esmagando-a, fingindo que não existe! Porque me enerva... Me chateia! Me aborrece! A maior parte dos seres adora a rotina! E quando a quebram por momentos sentem-se inseguros e amedrontados com os improvisos! Nem que seja tirar umas férias... Nada como voltar à rotina! Ena, este fim de semana foi de loucos, fomos aqui e ali e só voltamos naquele dia! Ena, como é bom estar de volta à rotina. Para não termos que pensar. Nem improvisar! Limitamo-nos a seguir os comportadmentos automatizados e pensamos em "respira.. expira... respira... expira!"Bah.... Odeio a rotina e tudo que permanece igual!

terça-feira, 16 de novembro de 2010

o meu lado esquerdo é de facto mais forte que o outro... e quando um lado ganha ao outro, é dificl de me entender. de eu entender o que há para entender. entender que existem coisas sem significado. Tudo para mim tem de ter uma lógica... e quando não tem?! O que é suposto eu fazer?!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

domingo, 14 de novembro de 2010

A voz do meu pai continua jovem... Mas gosto do passado! E é o passado que sempre me dá vontade de carregar um sorriso rasgado! Os momentos... Os amigos... Os dias... As cidades e as suas histórias!

sábado, 13 de novembro de 2010

E pronto... Mais uma derrota ontem!
Resultados!
Todos esperamos resultados positivos mesmo que os meios sejam negativos!
As motivações contraditórias ditam os resultados!
Só me resta ver os numeros do euromilhões!

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Nova geração!
Hoje é sexta feira e decidi que este blog, não irá ser eliminado como todos os outros!

Som de Hoje:
M.I.A
Boy 8 Bit

E vai mudar de nome! :') Bye Bye CHE!!!!!

o Call of Duty Warfare 2. Terminei a carreira em modo hard! Só me resta o ultimo nivel de dificuldade! É pena, comecei logo no hard! Gosto de guerra não foi nada dificil, foram precisos 8 dias :)

DEUSES MEUS!
PROCURAI-ME
E ENCONTRAI-ME!
POIS JÁ VOS ENCONTREI E LHES ACERTEI!
TIRO NA CABEÇA. NEM NOTARAM!
OLHOS ESBUGALHADOS CHEIOS DE EGOCENTRISMO!
CABEÇAS DESMIOLADAS QUE PAIRAM NAS NUVENS!
CERQUEI VOS! HUMILHEI VOS! ATRAIÇOEI VOS

quinta-feira, 25 de março de 2010

as ondas da imaginação

as ondas ondulam... e ondulam.... são suaves e contam as mesmas historias... a imaginação torna-as diferentes... a imaginação divaga e ondula suavemente lutando contra a força da corrente e o sopro do vento... o sol quando emerge é detentor de toda a energia e vida... a força da natureza... porque é tão forte?! talvez porque seja detentora da vida! Da vida por ela mesma... e nós... não somos vida! Somos fortes sim... Temos sido até mais forte do que a Natureza... ao ponto de quase a matar. Mas... a nossa força reside... a meu ver. a ver de revolução e vontade! Nós temos o amor. seja qual for a causa ou motivo. o amor nos impulsiona. indica nos o caminho que queremos seguir. e fez nos atravessar as ondas e imaginar. grandes navios passaram a estragar a ondulação natural. a força do homem é sobrehumana. mas só os ridiculos temem admitir que o amor está por detrás de tudo. das nossas escolhas e vontades. desejos e sonhos! secalhar temos um cérebro racionalizado demais. e as nossas opções são mais dificeis. mais tenebrosas e inquietantes. paramos e pensamos agora. muitos não se libertam. muitos tomam opções erradas e quebram uma vez mais. o nosso cérebro retirou a pureza humana. ou será que não!? Ajuda nos a perceber mas intriga nos. Diz nos a verdade e foge dela. mas o amor baralha tudo. estraga tudo. e o cérebro por vezes perde-se e foge da realidade. sonha. luta. vence. perde. Mas no final das contas foi o nosso coração que nos ajudou a atravessar aquelas enormes ondas, oh povo português!!! O vosso cérebro com certeza que lutou contra vós, oh imortal história! Lutou para que vidas não se perdessem naquelas ondas ondulantes tão iguais. Destemidos corações que carregados de amor venceram o medo por paixão pelo descobrimento! Povo imaculado que tanto foi esquecido com a morte dos nossos poetas. que com certeza viam nos seus sonhos a leve aurora a sobrepondo se ao azul negro da maré alta. cheia de vida e mistérios assombrosos! Mas se eles cá estivessem... os poetas... os homens vitoriosos... eles saberiam que os cérebros poderosos sempre vencem o amor. as grandes mentes haveriam de vir e controlar a pureza e dedicação. matar o amor e dominar com inteligência, dissimilando os nobre e leais corações pelo caminho... morte e escomungados de qualquer memória mais historica! uqem foi o povo portugues!? Se os EUA possuíssem uma historia como a nossa... tenho a certeza de quais seriam os maiores argumentos de sempre da historia hollywoodesca. tenho a certeza. mas essa historia. esse argumento é nosso, e lamentamos muito, que em tempos nós tenhamos sido os detentores do altantico. do pacifico e tudo em que pudessemos colocar uma caravela cheia de homens que viriam a perecer no final de cada jornada. e as caravelas só retomariam porto, depois de carregadas de tesouros, e doenças. e morte. e negrura e historias de terror. e sabedoria... muita sabedoria e historias de bravura que passariam de geração em geração. o amor á luta e ao desenvolvimento pioneiro do nosso país. tiramos proveito por estarmos na cauda da europa. lutamos. as grandes mentes depressa enterraram essa luta que em temos foi ganha. o cérebro matou a nossa grande luta ganha. que tédio. agora continuamos na cauda. na cauda dos mortos. e as ondas secas e cinzentas continuam a banhar a nossa costa. sem historias nem memórias. sem glória e orgulho. apenas vazias de amor.